domingo, 17 de setembro de 2023

céu já de pouco azul...



vou desbravando lugares ao esquecimento
meu coração solitário se afoga,
descompassado, sem alento
e um sonho se anuncia
como que um labirinto,
por detrás de cada sombra
silenciosa penumbra sinto.
parece que tudo se reduz
e o tempo enterra
perdidas as memórias
mas é a vida que encerra

tenho pavor do desconhecido
queria libertar-me e voar
e despertar num campo florido
onde o meu corpo soasse suave
leve como ave
sentisse o sol e o vento
sem abalo, nem temor
sem estar condenado a existir
neste tempo violento

estranho cansaço
e às vezes, uma imobilidade poderosa
sem vontade de dar mais um passo,
recordo o que resta da imensidade
do aroma
duma árvore que foi frondosa...

natalia nuno
rosafogo

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

estamos no escuro do verso...


que adianta dizer-te mais?
resplandecemos como paisagens
outonais,
entramos em caminhos de incertezas
de onde não regressaremos jamais.
a alegria iluminava-nos
hoje deixa-nos ao abandono
pede aos pássaros tragam sempre a primavera,
e ao sol que a seara amadureça,
esqueçamos o outono
vamos adiando o final que se espera
enquanto a gente não esqueça.

a vida ainda em nós existe
o coração resiste,
que mais podemos fazer
se nosso amor está cansado,
e este nosso dia acabado?
estamos sós no escuro do verso
ao frio, foice violenta do nosso espaço
que nos deixa indiferentes ao desejo,
a poeira do caminho agiganta-se
mas, teremos sempre um abraço,
um beijo, sempre um bom momento
até ao ventre do esquecimento.

natalia nuno
rosafogo
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domingo, 10 de setembro de 2023

o sol ao poema...



meu olhar é verde
como é a esperança e o prado
pela melancolia toldado,
traz com ele a sede de vida
e profunda apatia
verdes são também
as horas amargas do dia
caminho de dúvidas, porém
há também saudade
no fundo da obscuridade

às vezes vem o sol ao poema
e ouve o sopro ainda incandescente
do nosso amor
e faz dele o tema principal
no qual nasce vida
com tanto ardor.

vai levantando a água
vai esquecendo a agonia
faz mover o mar de ideias risonhas
traz de novo ao olhar magia
esquece-se o rumor da tempestade
e sonhamos...vive-se de verdade!

e é o instante dum Deus
enquanto a vida vai e lhe dizemos adeus.

natalia nuno
rosafogo
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sexta-feira, 8 de setembro de 2023

nostalgia daquele que já não sonha...


os dias rotineiros
dum vazio deslizante
sucedem-se a um ritmo alucinante
o caminho  indeciso
sem um sorriso
com cinzenta indiferença
perdida a paixão p'la vida
nostalgia daquele que já não sonha.

lúcida e taciturna
ouço à distância o vento
tudo é vida à minha volta
tudo morre e tudo brota
e meu pensamento se solta

elevo ao céu a límpida visão
quando a noite faz fronteira 
com a madrugada
como se fosse a única ou a primeira
pessoa mortal
e mais uma vez creio na vida
levando meus passos, é fatal.

some-se a luz caída tarde
neste coração que nada vê
a saudade, é a única verdade.

natalia nuno
rosafogo
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quarta-feira, 6 de setembro de 2023

como se não existissem palavras...







falo comigo sem os lábios mover
como se não existissem palavras,
pesponto sonhos e esperanças
chegam-me de longe lembranças
são tudo que não quero esquecer.
aquieto os ruídos dentro de mim
agora até pareço sorrir!

não deixo que me olhe a tristeza
essa tristeza às vezes sem fim,
chegam-me claras antigas vozes
revive meu coração
neste dia, que já nasceu
sem horizontes...ai vida não me confrontes.

que tristíssimos os dias,
quando não
invocam a esperança,
o sol já não gira na minha mão
como quando era criança,
nem o coração tem aquele fogo
que incendiava a vida
ficam para trás vividas experiências
já nada regressa, mesmo que o peça!

um sabor nostálgico, 
sorrio mesmo vencida
destrói-me o cego esquecimento,
é dor sentida!
a memória foge-me com o vento.

natalia nuno
rosafogo
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domingo, 3 de setembro de 2023

folha despida...

 


há uma luz cativa numa folha despida
efémera glória sua beleza
depois da tempestade
condenada, ninguém dela terá saudade
já não a ouves sonhar
julgando suprema sua imagem
reenventa na noite cristais
perde-se na paisagem
na escadaria infinita onde caíu
na página onde escrevo
ninguém a viu.

folha despida, feita em fragmentos
numa ânsia derramada
levada p'los ventos
a vida emudecida
ao abandono, nesta veloz escrita
aprisionada no outono
segue pensando, enquanto o coração bate forte, grita.

natália nuno
rosafogo

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

vou levando meu barco...



às vezes canto
quando quero chorar
e uma frágil ave
atravessa-me o peito,
as flores que florescem comigo
tremem procurando abrigo,
o coração consome-se por inteiro
habita nele a fraca luz de janeiro
cortam-se ramos e até a raiz
destes tantos anos
em que sonhando, fui feliz!

absurdas as horas
ando devagar
vou levando meu barco,
o tempo não me é favorável
e num momento, posso tropeçar
uma parte de mim diz-me que consigo
enche-me de certezas e esperança
a outra diz-me que cheguei ao fundo
perdi de mim a criança,
a solidão é agora meu mundo.

no rosto os sulcos são sinais
dum navio perdido na rota
será que ainda tem volta 
ou não voltará jamais?!

natalia nuno
rosafogo