quarta-feira, 18 de maio de 2022

pranto em palavras...



sofre de tristeza veemente
envolve-se nela na noite fria,
agoniza o coração lentamente
morre de mágoa dia após dia

joga cinzas do passado ao mar
a noite traz-lhe a escuridão
a memória  já á beira de desabar
só as estrelas lhe quebram a solidão

mas não hesita e volta a sonhar
sempre neste consistente anseio
seu sonho tem a extensão do mar

procura, encontra-se uma vez mais
flor perecível que de longe veio
remida de tempestades e ais...

natália nuno
rosafogo

quarta-feira, 11 de maio de 2022

tempo sem idade...




meu tempo, é tempo sem idade
suavizado pelo sol do teu olhar
meu corpo permanece no silêncio da saudade
onde meu sonho ainda se faz rolar
passou o tempo e eu desprevenida,
mas o amor ainda brilha como luz de estrela
sinto o coração a bater com vida
e a saudade... não posso viver sem ela!

trago a saudade docemente pela mão
e o amor caminha nas ruas do coração
feitos de memórias são agora meus dias
e os pensamentos são como abrigo
onde pousam tristezas e alegrias,
e a liberdade de estar a sós comigo.



natalia nuno

quase silêncio...




quase mágico seu rosto
labirinto de memórias
olhos que soletram o sol
são a linguagem dum silêncio
arrebatado, onde as palavras são substituídas
por música vinda do coração...
jamais se é o que se foi!
jamais se respiram as fragrâncias de Setembro
agora me lembro que o inverno se inicia
e a vida fala em sua mudez
amanhã talvez
uma rajada de pássaros cante no arvoredo 
do coração que ainda palpita,
voa e sonha sem esmorecer,
grita, suplanta o medo,
apesar da saudade às vezes o incomodar
a qualquer hora, 
deixando-o na solidão,
de uma velha dor, onde não quer ficar.


natalia nuno
rabiscos (1972)

terça-feira, 10 de maio de 2022

de tão pouco saber...


é como se palmilhasse muitas estradas
olho agora as minhas mãos flores de outono,
que insistem em querer ser amadas
antes que a este corpo chegue o sono.
às vezes pergunto-me porque ainda caminho
se me sinto borboleta já de asas queimadas,
de tão pouco saber...nada sei, nem adivinho!

levo os olhos baços
e são tantos os passos
que as memórias se perdem e enlouqueço,
ébria de saudade dos beijos e dos abraços
limpo as lágrimas e logo tudo esqueço.
ponho no rosto um sorriso doce, 
sento-me um pouco na ribanceira da estrada, 
deixo-me em pensativas emoções, 
um baloiço levado pelo vento
uma história infantil cantada, um nó de ilusões
e  tudo volta de novo ao pensamento.

levo a respiração ofegante
e sombrio o rosto que já não conheço,
dirijo o olhar para o horizonte neste instante
e pergunto-me, até quando este caminho?!
reconheço que nada sei, gastei as asas na travessia
-a vida é nuvem em correria!

natalia nuno






sábado, 23 de abril de 2022

aroma a saudade...



hoje a saudade falou alto
no coração ela ecoa,
e em cada linha que escrevo
não sei se devo
aceitá-la, pois sempre me magoa. 
é uma saudade que desatina
que anda em mim desde menina
ora me faz sorrir,
ora me faz dor sentir!
parece não sair de mim
trazendo-me o afago doutra era
doutro lugar, resoluta até ao fim,
sempre me desafia
a tirar-me da escuridão,
e num cálido sussurro dia a dia
emociona-me, toca-me o coração.
leva-me ao ponto de onde parti
memórias que tento agarrar
tudo o que no coração senti
e que tarda em sarar.

no leito do meu rio a secar,
ainda a saudade  me traz
um pouco de sol e luar.

natalia nuno
rabiscos (escrito em Setembro de 1971)

domingo, 17 de abril de 2022

pétalas vermelhas...



quando tudo era sede, fogo e ternura
e o sonho a fonte, 
nossos corpos eram de vôo
pousando como pássaros ardentes
nas ondas do centeio,
enquanto o sol se punha de permeio
no horizonte,
ribeiros despertavam do seu sono
em murmúrios e suspiros melodiosos de flautas
eu, em teus braços ao abandono
olhando o esplendor do dia a findar
nossos rostos sorriam...
hoje, com vontade de chorar,
pousarei minha boca em tua fronte,
quando o sol adormecer
no horizonte.

natalia nuno
(rabisco)

murmúrios...no recôndito da noite



frágeis são as borboletas, 
dançando no ocaso,
no adeus à tarde...
também minha memória é luz em fuga,
quando nas alturas surge a primeira estrela da noite,
amo a sombra dolente sonolenta,
brilhando como chispa de fogo que eu era, de verdade
hoje sou reflexo de alguém
a esconder o pesar
na noite que já lá vem
e, porque sou somente a lágrima que ficou
a flor incerta na próxima primavera,
já valor algum me dou,
quem muito viveu já pouco espera
chegou o inverno,
cantam tristes as aves na ramada
um canto doce, e terno
resvala do meu peito a dor, calada.

natalia nuno
(rabisco)
imagem pinterest