sexta-feira, 3 de maio de 2019

saudade a ventura guardada...



era manhã ainda quando os pássaros
visitaram as lezírias das minhas mãos
a trazer luz à minha luz remendada
e logo um feixe de emoções, de razões
e de esperanças, as levaram à febre que as queima,
onde a saudade sempre teima
palavras descem do ninho e vêm beber às minhas
águas,  lanço nelas minhas mágoas
conservo em minhas minhas mãos a luz que decai,
e p'los dedos escorre uma gota de saudade
que do coração até ao olhar me vai.
sou um vulto de sombra aqui sentada
perdi o tapete que se me estendia à minha frente
outrora
nada, nada, só a lentidão na hora...

povoa-me sempre uma história
como se fosse nova, e é doloroso sentir-me
enganada,
apago os olhos e navego
no rio do tempo, numa ventura que desce
ao meu peito, e não me entrego.
há-de a vida cumprir-se
há-de esfriar a solidão
meus olhos hão-de acordar e abrir-se
esquecer o peso da escuridão
e, no consolo da noite hei-de abarcar
a vida com amor, traçar o fio do futuro
as flores ainda hão-de brotar no jardim
vou ouvir um pássaro cantar, com doçura,
só para mim...até ao fim.

natália nuno
rosafogo
imagem pintarest





sexta-feira, 26 de abril de 2019

quando a saudade é tema...




hoje vou despir a ilusão
e vou vestir a realidade
tenha eu medo... ou não,
vou dizer não à saudade

sou como ave que voa
d' meus olhos para os teus
não quero saudade que doa
tão pouco dizer-te adeus

ando sem sentido algum
como a luz do sol tardio
sonhos não tenho nenhum
são as lágrimas como rio

batem os dedos no papel
como se batessem no poema
arrepia-se-me a pele...
quando a saudade é o tema

carrego em mim a tristeza
sobe aos olhos a escuridão
sobra esquecimento, incerteza
paira no rosto a solidão...

embrulho estrelas à noitinha
escrevo versos pra esquecer
que a morte ao lado caminha
floresce a vida... pra morrer

esvoaçam gaivotas no peito
e eu morro nesta escrita
trago meu sonho desfeito
sinto a saudade que me grita.

natalia nuno
rosafogo





quinta-feira, 25 de abril de 2019

tão perto de mim e tão perdida...



a vida estremece com delicado frio
e a solidão desponta
em tremendas tempestades
lá vêm as saudades!
de fio a pavio
vai a memória dando conta,
nas insónias acesas e persistentes
onde escuto o lento chilrear dum pássaro perdido
nas sombras intermitentes dum mundo a desabar
quero esquecer-me, quero escapar

e a memória dos dias volta do anoitecer ao
amanhecer...
lembro de ser
um ser feliz
de asas a bater,
a levitar num avanço e recuo
leve e doce a tocar as pétalas das flores
perdida de amores
com o sol à minha volta a rastejar
logo que a manhã solta surgia espelhando as águas
do rio... e eu estremecia com delicado frio.

agora sobrevivo à memória e ao tempo
inunda-me o peito a solidão que grito,
o vazio das horas
o vento turbulento baila no parapeito
dos meus olhos que não sabem porque choram
e aqui fico tão perto de mim e tão perdida
neste estreitar de tempo, nesta enorme descida.

natalia nuno
rosafogo

sexta-feira, 12 de abril de 2019

a insistência dos pássaros...



meus pensamentos são pássaros que esvoaçam
metade são tristeza, metade alegria
andorinhas negras que passam
nos dias em que minha alma está vazia
logo depois um fogo ardente
como as lavas dum vulcão
a esperança não está perdida
é semente, a germinar no coração
e os pássaros insistem em esvoaçar
às vezes sinto-me a enlouquecer
quero a sede aplacar, e o fogo emudecer.
e logo a saudade insiste e é quando
a vida desbota ainda mais, e, fico triste.

sempre pronta a viajar rumo ao passado
olhando parte da vida que desperdicei
rareia meu sorriso, ficou quebrado,
se pudesse voltar atrás, eu viveria, eu sei.

agora vou procurando a fantasia
e os pássaros vão sobrevoando perdidos
na imensidão, numa dança louca de esperança
e eu permito-me embriagar, noite e dia
e fico como criança, a sonhar
estou de bem comigo, e vive ainda em mim
aquele amor antigo, às vezes com o coração
aos pulos, outras mais pacato
e é assim a vida como um nó. que ora ato, ora desato.

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 10 de abril de 2019

a lua é cúmplice...



abre-se a noite, faz-se silêncio, a lua
é cúmplice, ao chão cai a roupa
tinge-se o céu de escuro, sou tua
após anos demais é esta a realidade,
das tuas mãos me chega a saudade
outrora o tempo era longo e, a noite
uma aventura...
pouco resta desse fervor, vive agora
esperança e nos olhares subtis,
regressa sempre a mesma ternura
desce a ventura ao nosso peito
e amamo-nos na negrura da noite
cumprindo-se o amor ao nosso jeito

olhas-me com amor
tocas meu corpo, e é belo viver
resta ainda o rescaldo do calor...
não necessitamos palavras, ficam estas por dizer
olho os dias passados e abarco-os todos com a
memória, uns apenas vividos
outros com amor sentidos
é agora escasso o tempo, e a solidão constante
entra a velhice e o cansaço,
abeiro-me de ti
procuro o teu abraço...e apesar de mudado meu semblante
não me sinto desamada,
sinto-me de novo enamorada
nesta noite de alegria sem ponta de tristeza,
onde o sonho é uma certeza...

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 3 de abril de 2019

do sonho cativa...



hoje sente-se um lírio numa jarra
sem água, o dia sombrio chorando
de mágoa, vê passar
a última garça da tarde e sorri
quem lhe dera também esvoaçar
o campo dormita e a noite já se agita,
e a rapariga de outrora recorda
o seu reino, das romanzeiras abrindo
das laranjeiras florindo
e como um véu bordado os insectos
abeirando-se da hera,
e o rouxinol com seus trinados... ouvir, quem lhe dera!
abandona o corpo ao sossego
vai ouvindo os queixumes das canas ao vento
como canção de embalar o céu...
passam nuvens solitárias no  cinzento quase breu
e ela sonha-se ágil por entre as campainhas
silvestres, bela de laços e fitas, ali, vizinhas
as violetas em silêncio, e ela de pálpebras
pesadas, reclina a cabeça, como o sol nos montes
enquanto o luar ilumina o frio cantar das fontes

sonha, vai perdida, regressa com a paz aprendida,
falando sem palavras, sempre do sonho cativa...

natalia nuno
rosafogo
imagem da net



quinta-feira, 21 de março de 2019

sonho impossível...



nada detém a febre dos meus passos,
nem a saudade do que deixei atrás de mim
suporto a solidão e o vazio das horas
mesmo que a vida vá perdendo a cor
sigo em frente sem demoras
com o vôo dos pássaros,
o riso das águas,  o aroma da flor
que levo ao peito.
sigo a meu lado e tão perdida...
levo também o grito e o frio da vida,
e por estranho que me pareça, minha sombra
imita meus movimentos
adivinha-me os pensamentos,
ignoro se ela é a minha prisão
ou sou eu que lhe dou a mão.

no silêncio da tarde, o dia
vai-se afundando, eu tropeçando
sentindo o esmagamento,
o rosto macilento, procurando o sonho
em vão, no esquecimento, na obscuridade
 no jardim solitário da minha saudade

volto a sentir e a contemplar a criança
que vive em mim e em paz, e me julgo
jovem para sempre,
este sonho, mesmo impossível, me satisfaz.

natalia nuno
rosafogo