terça-feira, 15 de janeiro de 2019

coisas que a noite urde...



cerrei as janelas dos olhos
e o sono diluiu-se
numa espécie de paz,
como um rio que corre
paisagem afora
tranquilo, na sua viagem
solitária...
olho os altos e direitos pinheiros,
no seu silêncio, sua imobilidade
entornam sobre mim a nostalgia
e tanta saudade
hoje a aldeia está luarenta
e o luar me tenta
meu sonho é uma fogueira a arder
oiço vozes das mulheres, uma sinfonia
e a recordação enche-me de alegria
horas amargas, horas doces
lembranças erguem-se do mais
profundo de mim
e o luar chega por fim
a rasgar-me o esquecimento.
agora, sobre a aldeia adormecida
o céu veste-se de cinzento
é  madrugada e eu acordada
alheia em meu abandono
a escutar a noite calma
até à chegada do sono.
quem pode saber o que me vai na alma?

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

desço a ladeira sem pressa...




havia uma ladeira em declive
lá em baixo o rio e as flores
que eram brinquedos, bonecas que nunca tive
flores de todas as cores, como o futuro
que imaginava enquanto no rio lavava
não há imagens que eu esqueça
existo ali, toda eu sou alegria
existo, em sonho assisto à beleza
da natureza pura alquimia

desço sem pressa a ladeira
o rio me espera encharcado
até hoje namora o salgueiro ao lado
a tarde já recai, regresso à eira
onde um pouco mais de sol e mais de vento
torna tudo um acontecimento
malham o trigo os malhadores
rapazes novos a pensar no casamento
nos amores, será a alegria certa
e serão abençoados,
trazem os dias contados
a noiva levará o véu
e o rio espelhará o azul do céu
recordação que doce se entranha
e toda a vida nos acompanha.

já as sombras caem, as primeiras
estrelas se acendem
meu coração em agitação
e meus pensamentos ao sonho se rendem
e ninguém sabe até onde vão...

natalia nuno
rosafogo



terça-feira, 8 de janeiro de 2019

livro que ninguém leu....



o coração vive de ilusão
embalado de nostalgia
como uma vela que se apaga
assim passa mais um dia,
e quando o olhar se alaga
faz lembrar uma tempestade de verdade,
que trespassa a memória
corrói as entranhas até não sentir
mais nada, ficam os sonhos na almofada
e alastra um gemido no escuro
depois, apenas o respirar no silêncio duro
se escuta,
perdidas as  esperanças, perdida a luta.

sou agora livro antigo, ninguém leu
um oásis de memórias que adormeceu
não há saída não
meu coração vive de ilusão
apagou-se tudo da memória, até os lírios
nas imediações me olham tristes,
a cada entardecer debruço-me nos lambris
das janelas, pousam as andorinhas em frente
espiam-me como se soubessem de mim e eu delas
há vasos vazios nas escadas, vidros partidos
cortinas desbotadas e portas sem fechadura
que importa, quem lá vivia morreu d'amargura

o céu hoje é mais azul, azul é tranquilidade
dia em que se envelhece ou morre de saudade
pensei-me menina com sonhos e risos
que não consentem partir, mas e
o medo da morte, tenho medo de dormir,
medo até das folhas agitadas pelo vento
tenho medo, que meu céu fique cinzento.

arrumo os medos e as lembranças que me ferem
levanto-me mais uma vez,
ainda há dias de alegrias invento-me
menina nos teus braços,

natália nuno
rosafogo








domingo, 30 de dezembro de 2018

poema maldito...



espreito por entre o tempo
para ver se me encontro
e a cada entardecer, há uma notícia falsa
um desencontro
ninguém me viu, ninguém sabe
perguntam até se sou fugitiva,
quem pode saber se ainda estou viva!?
ninguém tem interesse em saber
sou agora uma representação
sem alma nem coração...
o tempo não me leva a nenhum lugar
adormeci e acordei comigo
procurei algum lugar para me acomodar
mas não sei onde, não me encontro
nem encontro o abrigo
há três versões da minha história
ou fugi, ou estou por aí, ou me apaguei
de morte inglória.
olho para mim e digo sem dizer
confortada...que mal te fizeram mulher!?
este é o resultado das noites de insónia
mas está mal contado
não saltei, não esvoacei
e nem foi maldição
Mulher,
asseguro-te que estás viva
liberta os demónios da alma e do coração.

natalia nuno
rosafogo

sábado, 29 de dezembro de 2018

avenidas do meu viver...



a casa lá continua com pintura esboroada
em sua pesada realidade
na solidão, por todos abandonada
a casa onde tudo cabia, até a saudade
a chaminé já não fumega,
já não se dá volta à fechadura
mas ninguém nega
que por ali houve sonoras gargalhadas
e alguma ventura
definitivamente no crepúsculo
difícil é vê-la a morrer
tal como a menina que corre veloz
infatigável corre, agora sem se mover
num caminho donde não se retrocede
e está a chegar ao fim
e a menina vai e a mulher sorri
onde está essa menina que nunca mais vi?

longas são as margens dos meus sonhos
e largas as avenidas do meu viver
lembro os dias risonhos, do amor doce
da felicidade de poder dizer
que as lembranças suavizam o momento
que a vida tem a rota marcada
seu curso seguirá , nada poderá fazer nada
regado o meu pensamento, espero a alvorada
fumegante de harmonia, com a ilusão oculta
que a porta da casa de pintura esboroada
onde tudo cabia...
afinal sempre para mim se abria!

natalia nuno
rosafogo






quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

a saudade em memória...



oiço a respiração do silêncio
tudo no escuro parece assombração
há molduras abandonadas na parede
pára o meu coração e
na garganta a sensação de sede.
sente-se o bolor, a humidade
manchas amareladas fazem parte
ainda assim a saudade
eu sinto, das filhós na lareira
feitas com arte...
entra o vento pelas frestas da janela
treme a torcida na candeia
aqui estou a esperar por ela
tarda nada é hora da ceia
encostada à parede a mesa
com toalha branca desenxovalhada
passada a ferro como quem reza
pela avó que em solidão se sente
abandonada...

os pratos na cantareira
os talheres da bisavó
neste dia é grande a canseira
e eu ali estou, sentada na minha pequena cadeira
aguardando a minha filhó
na casa vazia, oiço a lenha que estala
e há fantasmas que vêm comigo à fala
em frente à janela pequenina
avisto a macieira, lá em baixo o laranjal
no meu quarto a mesa de cabeceira
onde ponho as memórias deste Natal
este é o refúgio da minha imaginação
onde o silêncio é total e o sol já vai a pique
brinco à apanhada no adro e o sino pede
que eu fique...  a lembrar-me que ali pertenço
ele estará sempre nas dobras do meu coração
será sempre constante o amor à terra,
este amor imenso.

natália nuno
rosafogo





terça-feira, 25 de dezembro de 2018

pensamento...



Mil pensamentos chocam-se no cérebro, recordações, frases sem sentido, gritos da alma, e a vida murchando como um balão que perde o gás e o desespero a extravasar como a água que não vence a barragem.

natalia nuno