sábado, 31 de março de 2018

sopro morno...


nas margens do coração
onde os sonhos desaguam,
há sentimentos e uma porção
de afectos que se perpetuam.
por lá vivem as lembranças de criança
como um leve sopro morno
e é a sonhar que a elas retorno
de quando em quando voltam-me
á lembrança, a incendiar o meu outono
em pedaços chamados saudade,
e neles me abandono.

lá habitam os beijos que jamais florirão
a esperança, qual trepadeira que desfalece
ah...meu pobre coração
deste jeito esmorece
o tumulto por dentro me invade
numa imprevista emoção.
minha voz tremula perdidamente
o tempo, sempre o tempo
só a saudade embala o meu peito novamente

natalia nuno
rosafogo

sexta-feira, 30 de março de 2018

amanhecer primaveril...



amanhecem as saudades em mim
sacodem-me com ternura
e desenrolam-se nas letras que escrevo
assim, com frescura nascem
palavras  de maresia,
versos de melancolia
frutos tardios de outono
sonhos onde me abandono,
acordam na criança que fui e sou,
sentimentos e emoção
num solitário abraço que não desatou

lembranças tímidas e impacientes
parecem luas florescentes
aninham-se no meu regaço,
e o silêncio é a minha arte
os sentidos a flutuar,
meu tempo escasso
enlouquecido de solidão
meus olhos a pingar,
e o poema sorridente
num vôo inocente
a fazer-se chegar ao coração.
lembranças em delírio, cobertas com mantos
de saudade... memórias de tenra idade
iluminadas por dentro, descobrem o caminho do verso
aquecem-me e são a minha verdade.


natalia nuno
rosafogo







domingo, 25 de março de 2018

o último sonho...



solicito o meu quinhão de felicidade
abro o peito aos abraços
saboreio as lágrimas da saudade
crio à minha volta laços
de amizade e afeição...
separo das recordações os dias sombrios
cruzo comigo enternecida
e nego à amargura a entrada no coração
e sem saber porquê faço-me de novo à vida

cruzo com o enternecimento
poiso os olhos no papel e escrevo
com mãos de poeta e encantamento
de madrugada ergo-me do leito
os pensamentos ajeito
do travesseiro trago o último sonho
e de novo a sonhar me ponho

a aldeia está silenciosa, quieta
e a noite perfumada de luar
aqui sozinha eu e o Poeta
ouvindo apenas os pios das aves
os murmúrios das folhagens, suaves
os soluços duma flor desfolhada
e eu devaneando no sonho, nesta hora
calada.
meu coração agita-se nas folhas de papel
o sonho é ilusão mas é amor que arde
sinto-o na pele,
e antes que seja tarde,
que o tempo tudo consome
deixo-me afagar pelo luar
deixo que nasçam na mente como flor
os versos que trato com amor...

natalia nuno
rosafogo
aldeia 10/02/2008













sábado, 24 de março de 2018

sombras...



sombras emaranham-se no rosto
firmes, já de uma forma esquecida
a vida as teceu nos dias de solidão
é isso que significam, é isso que são!
a vida tem dedos de sombras, longamente
esticados, que nos vergam e deixam o rosto
sem feição...
pontos escuros, sinais gravados na face
e os olhos nos lagos se afogam
o rosto belo, belo como a neve do jasmim
promessas,  paraísos, depois risos
passaram por mim...

meus lábios ficam mudos
perdi o caminho, não sei como reencontrar
nada escapa ao tempo faminto
ataca e morde até se saciar
na sua voracidade
numa queda sucessiva, vamos ganhando idade
suportamos o insolente
que copiosamente, nos vai deixando na saudade

natalia nuno
rosafogo


segunda-feira, 19 de março de 2018

mariposa exausta


desisto de escrever por hoje
já nada há na minha imaginação
até ela me foge...
há pétalas esmagadas p'lo chão
e eu, mariposa exausta de esvoaçar
sobre a urze do monte, sobre o alecrim,
no meio dos sobressaltos do vento
dou por mim, cansada,
é o fim deste dia cinzento
que se desfaz em noite escura.
resta  a melancolia. o lamento
e a feiura do tempo, que me vai moldando sem piedade
deixa um rasto no meu rosto assombrado
e um coração de saudade quebrado

adormecem as rosas de cores frias
enquanto arrumo o fio do pensamento,
apresso o passo que breves são meus dias
afunda-se a tarde neste crepúsculo cinzento.
já se foi o calor das minhas mãos,
agora vazias, sentem a solidão dos dias repetidos
ressequidos de sonhos passados...
aguardo p'lo sol que mal espreita
enquanto a vida se ajeita
que nada interrompa esta m' meditação
foi-se a antiga alegria
resta a cinzenta inquietação

este poema escrevi, rasgando o azul do sono
subindo os degraus da noite escura
com a memória agoniada
e eu sigo até de madrugada...
aguardando a manhã futura, com energia na alma.

natalia nuno
rosafogo















sexta-feira, 16 de março de 2018

teia de nostalgia...



sem ti não sei o que serei
nem saberei dos sonhos que sonhei
o tempo vai gotejando em nossas vidas
como gotas das nuvens caídas
ao desamparo no telhado...
meu coração é pássaro azulado
cansado, de tanto amor vivido
esta noite ouviremos a ave do paraíso
seguiremos por um atalho docemente
mão na mão como antigamente...
e se pretenderes meu afago
as estrelas do céu apago
para te dizer na escuridão
o quanto te ama meu coração

ficaremos horas a lembrar
o que foi nossa ventura
e depois com a ternura que ainda dura
faço-te um poema de amor, grandioso,
deste amor que é agora ainda maior
inventaremos caminho novo
sem ausências, nem clamores
onde só exista sol, pássaros e flores
gritarei que te amo aos sete ventos
até que se faça dia
e a noite fôr já agonia.

esperaremos p'lo afago da brisa
que afagará esta nossa paixão,
a primavera encherá de novo de papoilas
o nosso chão,
e no céu azul do meu peito
serás minha constelação.

natalia nuno






sábado, 10 de março de 2018

quando o sol dorme...




quando o sol dorme
mato um pouco de desespero
falando com a solidão,
vou até à esquina de mim e assim
deixo que o coração
fervilhe de sentimentos, embora saiba de antemão
que a noite arrefece o corpo e os pensamentos.
logo o verde dos meus olhos vai até
onde começa o dia, e brilha deslumbrado
como se fosse um verde prado
onde crescem giestas,
e onde há linguagens em festa.

quando o sol dorme
há pássaros nos meus dedos
que sabem a direcção dos ventos
arautos dos meus pensamentos
e no verde dos meus olhos, vai-se apagando a neblina
logo ouço ao longe os trinados
que trago na recordação de menina

quando o sol se deitar mais cedo
e a vida a beber o ultimo trago, a esvair-se
o verde dos meus olhos fechar-se-á a medo
de não voltar a abrir-se
não voltará a sentir a opalescente luz matutina
nem recordará mais a imagem da menina
ah se o sol não tivesse adormecido
e o verde dos meus olhos empalidecido,
nem as opalinas luzes me entrassem na alma,
causando esta obscuridade
não morreria hoje de saudade!

natalia nuno
rosafogo