sexta-feira, 12 de abril de 2019

a insistência dos pássaros...



meus pensamentos são pássaros que esvoaçam
metade são tristeza, metade alegria
andorinhas negras que passam
nos dias em que minha alma está vazia
logo depois um fogo ardente
como as lavas dum vulcão
a esperança não está perdida
é semente, a germinar no coração
e os pássaros insistem em esvoaçar
às vezes sinto-me a enlouquecer
quero a sede aplacar, e o fogo emudecer.
e logo a saudade insiste e é quando
a vida desbota ainda mais, e, fico triste.

sempre pronta a viajar rumo ao passado
olhando parte da vida que desperdicei
rareia meu sorriso, ficou quebrado,
se pudesse voltar atrás, eu viveria, eu sei.

agora vou procurando a fantasia
e os pássaros vão sobrevoando perdidos
na imensidão, numa dança louca de esperança
e eu permito-me embriagar, noite e dia
e fico como criança, a sonhar
estou de bem comigo, e vive ainda em mim
aquele amor antigo, às vezes com o coração
aos pulos, outras mais pacato
e é assim a vida como um nó. que ora ato, ora desato.

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 10 de abril de 2019

a lua é cúmplice...



abre-se a noite, faz-se silêncio, a lua
é cúmplice, ao chão cai a roupa
tinge-se o céu de escuro, sou tua
após anos demais é esta a realidade,
das tuas mãos me chega a saudade
outrora o tempo era longo e, a noite
uma aventura...
pouco resta desse fervor, vive agora
esperança e nos olhares subtis,
regressa sempre a mesma ternura
desce a ventura ao nosso peito
e amamo-nos na negrura da noite
cumprindo-se o amor ao nosso jeito

olhas-me com amor
tocas meu corpo, e é belo viver
resta ainda o rescaldo do calor...
não necessitamos palavras, ficam estas por dizer
olho os dias passados e abarco-os todos com a
memória, uns apenas vividos
outros com amor sentidos
é agora escasso o tempo, e a solidão constante
entra a velhice e o cansaço,
abeiro-me de ti
procuro o teu abraço...e apesar de mudado meu semblante
não me sinto desamada,
sinto-me de novo enamorada
nesta noite de alegria sem ponta de tristeza,
onde o sonho é uma certeza...

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 3 de abril de 2019

do sonho cativa...



hoje sente-se um lírio numa jarra
sem água, o dia sombrio chorando
de mágoa, vê passar
a última garça da tarde e sorri
quem lhe dera também esvoaçar
o campo dormita e a noite já se agita,
e a rapariga de outrora recorda
o seu reino, das romanzeiras abrindo
das laranjeiras florindo
e como um véu bordado os insectos
abeirando-se da hera,
e o rouxinol com seus trinados... ouvir, quem lhe dera!
abandona o corpo ao sossego
vai ouvindo os queixumes das canas ao vento
como canção de embalar o céu...
passam nuvens solitárias no  cinzento quase breu
e ela sonha-se ágil por entre as campainhas
silvestres, bela de laços e fitas, ali, vizinhas
as violetas em silêncio, e ela de pálpebras
pesadas, reclina a cabeça, como o sol nos montes
enquanto o luar ilumina o frio cantar das fontes

sonha, vai perdida, regressa com a paz aprendida,
falando sem palavras, sempre do sonho cativa...

natalia nuno
rosafogo
imagem da net



quinta-feira, 21 de março de 2019

sonho impossível...



nada detém a febre dos meus passos,
nem a saudade do que deixei atrás de mim
suporto a solidão e o vazio das horas
mesmo que a vida vá perdendo a cor
sigo em frente sem demoras
com o vôo dos pássaros,
o riso das águas,  o aroma da flor
que levo ao peito.
sigo a meu lado e tão perdida...
levo também o grito e o frio da vida,
e por estranho que me pareça, minha sombra
imita meus movimentos
adivinha-me os pensamentos,
ignoro se ela é a minha prisão
ou sou eu que lhe dou a mão.

no silêncio da tarde, o dia
vai-se afundando, eu tropeçando
sentindo o esmagamento,
o rosto macilento, procurando o sonho
em vão, no esquecimento, na obscuridade
 no jardim solitário da minha saudade

volto a sentir e a contemplar a criança
que vive em mim e em paz, e me julgo
jovem para sempre,
este sonho, mesmo impossível, me satisfaz.

natalia nuno
rosafogo



palavras d'água...



os meus olhos embriagam-se de poesia
e florescem neles as mimoseiras
os pensamentos se dispersam
e logo as saudades são as primeiras
a afagar-me o coração,
a levar-me ao passado, às manhãs solarengas
às papoilas cor de carmim
que ainda chamam por mim,
e nos meus sonhos canta ainda o rouxinol
e só de o ver naquele ramo
fico de sorriso inteiro, criança à solta
neste dia de sol que não volta
e que é tudo o que mais amo.

vou ao mais fundo de mim
acordar as lembranças
e nos meus sentidos, floresce o jardim
da mãe, é primavera, e eu fico ali
sentada à espera...
vou ficar, há coisas que me fazem chorar
vou ao rio escrever palavras d' água
ouvir o zumbido do zangão, esquecer a mágoa
e na saudade seguir serenando meu coração

hoje o azul do céu está mais intenso
esvoaçam as andorinhas
meu passo é agora mais lento
mas eu invento que corro carreiro acima,
com um ramo de flores na mão.
assim sou feliz, criança a sorrir, leve
como a aragem do vento, e
como dizia a mãe, sempre cheia de razão.

natália nuno
rosafogo

terça-feira, 19 de março de 2019

quis o destino...



quando a alegria me era presente
e o silêncio não era de arrepiar
a vida era sonho e de contente
os meus olhos aos teus a felicidade
 íam buscar
quis o destino a tal sorte
que eu ingénua borboleta a ti me entregasse
nada mais há para lembrar que me conforte
que este sonho belo, que não deixo desfazer
e com ternura nos teus braços
me deixo ainda envolver

dentro dos meus olhos o teu olhar
onde cintilam desejos
e este sonho que contigo criei
e que é imenso como o mar.
sinto-te quando estou longe de ti
minhas palavras ficam orfãs
como se o tempo fugisse em delírio
a maior saudade que já vivi
a de não poder estar contigo,
e assim a vida foi crescendo
entre rajadas de vento e mel quente
e hoje sinto de novo,
a sabedoria do teu corpo no meu
o ardor fragrante que inda volta
como uma quimera, a todo o instante.

natalia nuno
rosaofgo





domingo, 17 de março de 2019

em solidão me queixo


sinto a marcha dos meus passos
e ouço o som que o vento move
sinto a falta dos abraços
murmúrios que ninguém ouve
arrepia-me o pó da estrada
duma lembrança à outra o pensamento vai
enquanto triste, baloiçando,
vão-se os meus braços embrulhando
e o desejo com a idade cai...
arrasto-me como uma sombra inquieta
meu coração abre-se às mágoas de todas as mágoas
o mundo piora, murcham as flores da paz hora a hora
meus dedos escrevem saudade, dor, também alegrias
com a força que inda resta nestes meus dias.

ainda assim, o alento de hora a hora me vem
sempre me restam algumas vãs esperanças
exausta fujo para a terra de ninguém
levo comigo apenas lembranças
assim na minha alma chove outra doçura
recordo com saudade o que me treme na mente
e o passado trago ao peito ligado com laço docemente
então meu rosto de ternura e nostalgia se tinge
e o sonho suavemente a mim se cinge.

e em solidão me queixo de sentir-me tão frágil
barca..........
se nem sei o que quero, quando a vida já me é tão
parca.........

natalia nuno
rosafogo