sábado, 10 de abril de 2021

horas vazias...



calou-se o mundo
num silêncio profundo
estamos no fundo do poço
as árvores ciciam ao vento
é tudo quanto ouço!
choram as rosas esta manhã
profundo lamento...
gotejam tormentos do meu peito
nos ouvidos um zumbido indistinto
a vida não leva jeito
é tudo o que sinto.

a saudade me trespassa
e o sonho me alimenta
um íntimo segredo, 
quem me abraça
também o sonho me sustenta.
o vento passa por mim
com a música eterna da saudade,
num movimento sem fim
com voz de quem canta liberdade.
sem espaço para abraços
a solidão vai e vem
ouço agora os teus passos
saudade de ti também.

natalia nuno
rosafogo
11/2008




a esperar-te...



longos dias sem ti
horas tão largas
tremi, 
emoções amargas,
a noite esconde-se
ao ver-me esperar-te,
meu coração é como pedinte
cego, a pedir esmola por amor!
sigo errante, dói na alma
lembrar-te...
já não é límpida a minha visão
já meu mundo está perdido
só trago no coração o sentido
de amar-te...
ou será ilusão?
guardado trago como milagre
esse amor da minha saudade
hoje o corpo alquebrado
para sempre calado.
saudade e dor adormecidas
sobre minha face a história das nossas vidas.

natalia nuno
rosafogo
1992
pequenos e singelos poemas que ficaram na sebenta muitos anos.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

poesia é...



a transbordar de alegria
ou de tristeza e desalento
vou criando poesia
e é como brilhante aparição
minha única obsessão,
que não me foge do pensamento
noite e dia...
exprimo-me com suavidade
meu sentir é bem real
minha verdade perfeita
poesia menina eleita
que é a minha paixão
a escrevo abrindo o coração.

a poesia aproxima-se, 
e também se evade
é ferida aberta, ou paixão
ou é também recordação
e saudade...
é sede, é fragrância, é flor!
é do meu corpo o mar
é fogo e ternura, é amor
invento-a no meu sonhar.

natalia nuno
11/2002



aqui na solidão...



uma lágrima furtiva
na janela do olhar,
navego na imaginação
a reter a asa,
- com vontade de voar!
aqui na solidão,
no desdém da noite, que me tenta
afogar.
tive sonhos cor de rosa
que ainda vivificam em mim
duma forma generosa,
mas ironia, tonta pomba
a querer voar assim...
foi-se o tempo dos lábios pintados
de fresco, do sorriso de frescura
e os afectos bem acordados

no desabrido coração ao luar
hoje sinto a alma vazia
já não vislumbro mais além,
não quero amar, nem a poesia!
as palavras que escrevo são de ilusão 
poesia é de saudade e meu entretém,
saudade que não é de hoje
mas é minha, de mais ninguém.

natália nuno
rosafogo
imagem pinterest




quinta-feira, 8 de abril de 2021

chorar a saudade...


levo minhas mãos caídas
abre-se a noite sobre mim
no coração sangram feridas
dum tempo louco sem fim

lanço neste poema o fogo
que tem por amor o tema
e eu quero que pegue logo
rasgo as veias sem piedade
que dilema!
o refúgio é a palavra
contida nela a saudade

tanto ardor no coração
deixem que chore à vontade
é tudo o que me vai na alma
chorar por amor é saudade.

depois não importa morrer
quem tem este jeito de amar
quer ver o fogo crescer!

fogo infindável em chama
vermelha da cor da tarde
que alumia o quarto e a cama
onde o amor faz alarde,

sempre que gente se ama.

palavras movem-se no poema
tão calmas e sem temor
hoje somos cansaço, é pena!
sobra a lembrança deste amor.


rosafogo 10/2017




vazio nocturno....




a mente não lhe dá tréguas, segue sozinha seu caminho,
no peito leva lamentos que ninguém entende,
se ao menos a escutassem poderia ser feliz, 
o coração chama acesa, mas o destino não quis, 
arroja-se nas palavras onde a saudade enfrenta, 
às vezes tempestade no pensamento, e assim vai suspirando, sonhos, desejos e lamento, o olhar contas de vidro baço, 
de dor cheia, desenleia a recordação dum abraço... o rosto cansado onde o sol já se deita, 
o sorriso já deita a fugir à tempestade, 
e a mente sem tréguas não lhe dá  paz...
conta as horas do tempo que lhe foge, 
a esperança que era verde e já se perde, 
é tarde desvanecem-se os sonhos, 
as lembranças são instantes perdidos,
olha as últimas nuvens no céu, as aves andam distantes,
as amarguras do dia são delírios de chuva a tocar o poente, 
e na sua mente a maré grande da melancolia, 
a terminar seu dia.


natalia nuno


quarta-feira, 7 de abril de 2021

volta de mansinho...



ouvem a menina do baloiço
ainda no baloiço a baloiçar?
olho para trás e ainda a oiço
como que por mim a chamar

veem como a mim se enlaça
protege-se da sua fragilidade
não a derrube o vento q'passa
e a menina chore de saudade

veem como baloiça tão alto
como a querer chegar ao céu?
deixa em mim o sobressalto
se lhe dói, dói o que é meu

ouvem o ranger dos ramos
que suportam seus sonhos?
inquietantes dias, tamanhos
apanha amoras e medronhos

veem-na n' ondas do centeio
nas tardes nuas de verão?
atravessou m'ha memória veio
adormecer no meu coração

veem como é ave que voa
livre,  de asas estendidas?
não há saudade que não doa
é ela bálsamo das feridas

natalia nuno
rosafogo
imagem da net