segunda-feira, 1 de outubro de 2018

um sonho após outro...



habita em mim a angústia dos dias
e a frialdade das noites
as lembranças são brasas frias
que arrefecem nas horas desertas
dum tempo cinzento,
o relógio parou os ponteiros
ouvindo meu lamento.
é agora outro o meu silêncio
e eu como se outra fosse,
aguardo na solidão, um outro tempo,
uma quietude mais doce  que seja
recompensa duma vida cheia de nuvens e aragem
que venham novos sonhos, e promessas maduras
falando ciciosamente ao meu ouvido, acariciando o peito,
e o tempo me deixe ilesa nesta minha passagem

empurro o cansaço dos passos e sigo
trago em mim um cheiro a saudade
poiso borboleta num sonho antigo
um sonho após outro, traz-me felicidade


natalia nuno

rosafogo





sábado, 29 de setembro de 2018

já não há malmequeres...



já não há malmequeres no meu outono
nem nos meus sonhos há qualquer segredo
já me arrancaram até o sono
já o vazio me apanha e me faz medo

faz tanto tempo que dormia numa cama
de folhedo...
abandono-me na tarde e regresso ao aroma
que a saudade me traz dessa primavera,
de sangue novo, saudosa, de quando era
menina do povo...

já o vento do poente não me enche o peito
de ar
extraviou-se a memória, quebrou-se o olhar
ainda assim escrevo, escrevo exaustivamente
tenho tanto amor no peito que de mim não estou
ausente...

fiz barquinhos de papel, pu-los a navegar 
como se a vida de par em par se abrisse
e os peixes de prata vinham as m' mãos beijar
hoje, pra não sentir a solidão, apanho tílias e giestas
e os sonhos voltam a fazer-me festas...

acordo p'la manhã, e sinto-me botão por abrir
apesar de viver não seja perfeição
a natureza está sorridente, tenho de sorrir,
é agora tempo que afaga, dá-me a tua mão
que a desesperança não se abata sobre nós
esqueçamos a longínqua margem do verão
e amemo-nos, neste outono sereno que nos leva à foz.

natalia nuno
rosafogo

terça-feira, 18 de setembro de 2018

neste dormir, acordada...



a saudade é tão dolorosa,
no olhar lágrimas de sal
e essa inquietude custosa
e esse amor no peito fatal.
morrem olhos de paixão
do céu caem mil  águas
mil anos levo de solidão
a curar minhas mágoas.

haverá sempre um dia
que se quebrará o gelo
como de amor feliz seria
só sonho e não pesadelo
aos m' gritos, e meus ais
digam que morri um dia
gastei sentimentos demais
mas, amor igual eu daria

saudade e dor adormecidas
por não querer-me ninguém
rugas no rosto esquecidas
só o amor o peito o retém...
há quanto tempo aqui estou
vai pouco mais do que nada
- meu corpo é teu, eu me dou
neste dormir ... acordada

natália nuno
08/08/2008





sábado, 15 de setembro de 2018

pequena prosa...



que difíceis se fazem as palavras quando queremos falar daqueles dias em que o sol girava nas nossas mãos, e a vida tinha um som distinto e tomava seu rumo dando-nos felicidade, deixou-nos um sabor nostálgico, horas talvez mais solitárias, mas ainda assim o sorriso sempre aflora e a saudade que abraçamos nos traz bem estar. Assim com esta simples prosa, venho desejar um bom fim de semana... sereno e feliz  a todos os amigos que visitam este meu lugar... abraço-vos

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

das minhas penas...



hoje trago nos olhos o verde
da campina, dançam os ramos
embalados p'lo vento,
os pássaros são linhas escritas no pensamento
voando aflitas, inventando palavras choradas
num desejo abafado de ter-te a meu lado,
palavras com a leveza das penas
das minhas penas...
os pássaros agarram.se aos meus olhos
com tristeza, outros partem à debandada
pelos escolhos da vida... causam-me tempestade
agora que a vida é já saudade

adormeço com as lembranças no peito
e o coração embebido de ternura
tudo parece ser perfeito
amanhã recomeça o desencanto
da realidade, mas a procura de ser feliz
continua está viva, bem viva
ao meu olhar os pássaros vão voltar
o verde será mais verde
como o desejo infinito de te amar
é minha sede.

tremem os ramos e as folhas
meu amor quando me olhas
agora que finda a viagem
meus sentidos ainda por ti reagem!

natalia nuno
rosafogo





quinta-feira, 30 de agosto de 2018

sinais de luz...



o dia está prestes a raiar
sinais de luz entram pelas janelas
voltam as recordações antigas
e eu sonho com elas
lá está a cortina branca transparente
e a cama  de latão cor de azeitona
mas onde está minha gente, que
agora me abandona?
meu olhar contorna o guarda fato
e o espelho, a mesinha de cabeceira
tudo na mesma, a fita rosa com que ato
o cabelo, a boneca de trapo comprada na feira
gosto de levantar os puxadores um a um
aceito a ilusão de lhes ouvir o barulho, caindo
tenho medo de sufocar, não sei bem
o que estou sentindo,
casa pequena à minha medida
chão de soalho, conheço-lhe os nós
sinto-me perdida...onde estão meus avós?
ouço as gavetas a abrir e a fechar
ouço até o barulho dos talheres
como posso a saudade calar?!
meu pai dizia: casa de mulheres
esposa e duas filhas, e a avó sempre a espiar
a avó fonte de sabedoria, generosa inclinação
para ensinar, as tarefas de aprender e fazer.

acordava a sorrir, o pai levantava-me nos braços
dessa manifestação de carinho,
como é boa esta ilusão de ainda lhe sentir os abraços
uma surpresa, tem que surpreender
hoje esqueço a morte e trago tudo de volta
com inabalável convicção, e o coração
se solta, abro a janela da mente de par em par
e deixo o sol de vez entrar, deixo a saudade no parapeito
e deixo-me na expectativa, quem sabe não  arranjo jeito
de voltar a sonhar com estas viagens que não são novidade,
onde eu mato sempre a saudade.

as lembranças vivem, martelando-me o pensamento
e eu sinto-as vivas a cada momento,
 liberto-me das exigências da vida e, vou fazendo a despedida.

natália nuno
rosafogo





quarta-feira, 29 de agosto de 2018

rio da memória...




é no rio da memória que me sento
na margem, lembrando o tempo em que sonhava,
não escondendo a emoção, dava-te a mão
era um tempo diferente este que lembrar eu tento
em que um bando de aves nos pousava no peito
e eu te amava, tão menina, ainda sem jeito
como a vida é breve,
lembro a cada momento.
ainda hoje espero pela visita dos pássaros
e do vento, a trazer-me de novo
num golpe de magia, o encanto e a alegria
desse tempo que corre no rio da memória
onde me sento.

navego, estou de abalada
o tempo é escasso
levo a saudade e a carência do teu abraço
já cansam meus olhos de ver a imagem,
menina deste meu sonho sem idade
sonho que é já miragem
no verde dos meus olhos é saudade

num bater de asas me liberto
deste sonho e do resto do caminho tão incerto
mas se tempo me sobrar hei-de voltar
aqui à margem do rio da memória onde me sento
sonhando,
aliviando meu pensamento.

natalia nuno
rosafogo