sábado, 13 de setembro de 2014

Luz boreal...



Abria-se a escuridão da noite
nas ramagens o rumor do vento
ao abandono nossos corpos nus
numa entrega como flores ao relento
lá fora a vida levando sua cruz
tu eras o vento que me açoitava
o interminável sol que me aquecia
eu a flor que por ti brotava
feliz até ver nascer o novo dia
sempre o amor com intensidade
nas mãos hoje, gestos de saudade

Carícias como nuvens brancas perdidas
pairando sobre nossos corpos
depois a doçura dos silêncios,
das horas enlouquecidas
resta ainda uma indelével frescura
cascatas de risos e ternura...

cada dia mais viva esta magia
tanta era a emoção no caminhar
hoje a recordação em mim irradia
como a luz boreal que noite e dia
é presença ditosa no nosso olhar.

natalia nuno
rosafogo

Noruega 7/2014





espero-te...



ESTE SONETO FOI-ME DEDICADO PELO JORGE SANTOS

Um soneto dedicado a quem me fez duas criticas positivas a minha simples poesia, espero que gostes.
ESPERO-TE
Espero-te... num deserto fecundo e perdido agora,
Entre séculos dolentos de uma servidão que não entendo,
Onde exististe sem viver, num mundo que emendo,
Em que me deste tanto do teu tão pouco, quando te foste embora...
Espero-te... onde a demência é sã e nela vou lendo,
Que a plácida flor do alento também chora,
Indulgente no seu caminhar, pois de amar é hora,
Dirimindo o murmúrio das pétalas doendo...
Espero-te... onde esse sorriso enxuga a lágrima que pendo,
E a pena amordaçada que já não demora,
A sussurrar o prenúncio do sudário onde me estendo...
Espero-te... num tempo d’outro universo, onde mora
A esperança que vai murchando, e a vida morrendo
Na beleza das palavras que o próprio poeta ignora...
Autor: Jorge Santos

Poeta da minha terra...obrigada Jorge

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

sobre o tapete...



sobre o tapete
com que prazer os corpos
se amavam
na intimidade que dissipava
qualquer barreira
numa audácia de dizer não aos preconceitos
ali onde o amor fechava
os olhos, e oferecia uma
linguagem nova,
no ar o odor da flor
agigantavam-se as asas do desejo
e tudo...tudo era amor.

Os  olhos revelavam o querer
e no calor dum beijo
o tempo era uma infinidade
no rosto o assombro da novidade
no teu redobrada fascinação
e as insistentes palavras finais...

Amo-te...Amo-te cada dia mais


natalia nuno
rosafogo


domingo, 7 de setembro de 2014

meu povo...



A tarde desvanece e o povo
 adormece...no rescaldo da vida
no rosto uma expressão perdida
a vida que se evade, a terra ao abandono
o último pássaro adormece
na copa do loureiro,
o rio em movimento
e no coração das gentes o estremecimento
como será o amanhã? E uma inquietude
sem fim...

Dorme com o velho sonho
que será feliz ainda assim...

Com o que lhe resta, segue em frente
é preciso que o corpo obedeça
mesmo que já não tenha onde ir
nem lhe interesse o porvir,
a terra será seu sonho sem tamanho
o que sabe da vida é sua fortaleza
e da terra o amanho
dos pássaros conhece os trinados
tudo sabe das luas, dos ventos, das estações
cansados, cansados de tanto saber
do plantio, da rega, da apanha, da entrega
da velha arte, do ofício... sem ilusões,
sua existência é feita de sacrifício,
se já nem a dor faz sentido,
outra vida poderiam ter tido?

Privado de tantos prazeres que outros têm à mão
levou a vida cavando a terra
um dia parte leva cicatrizes e
solidão e descansa finalmente
no seu amado chão.

natália nuno
rosafogo






sábado, 6 de setembro de 2014

meia ponte...



Meia ponte...dói a recordação
no seu chão
a história de tanta gente
só se ouve a linguagem da natureza
a alegria perdurável do rio que passa
insistente e com graça
mas na ponte já ninguém passa
meia ponte...dói a recordação
quem se acostumará à morte?
Por ali vai pulsando o verão
tudo vive, só a ponte não teve sorte.

visitam-na os ocasos e as auroras
e o azul do céu é omnipresença
a luz branca da lua sem demoras
e os sapos cantando fazem presença

Quiméricos sonhos aqui passaram
enigmas dum tempo que já não volta
quantos pássaros por aqui voaram
quanta fome de liberdade
quanto sobressalto, quanta gargalhada
quanto rancor, hoje é meia a ponte
e todos a recordamos com amor.
Maldição ou desamparo
destas tão pálidas defesas?
Minha memória não descortina!
E a ponte  veste-se de presságios e
de  silêncios,
do que recordo de menina.

natalia nuno
rosafogo




segunda-feira, 1 de setembro de 2014

À minha terra...




Hoje fui às hortas
uma estranheza tocou meu olhar
já não havia pássaros a cantar
nem moças no rio a lavar
meu olhar pereceu ali,
o entusiasmo aboli
enquanto o coração o vazio aceitou.
Há dias em que me afasto um pouco
já nada é o que era, já nem eu sou!?
Precisei de voltar lá, a ver
as hortas e o rio
mas nada é o que era
meu coração regressa vazio
e embora já nada possa ser
não vou maldizer o tempo perdido
trouxe o aroma das laranjeiras
nos olhos a luz de mais um dia amanhecido.

Trouxe o sereno da tarde
que consolou o meu peito
por mais que me digam a verdade
aquele ledo encanto é meu coração que sabe.

Quando me disponho a regressar
há sempre uma lembrança a despertar
no chão desta minha terra, ou no firmamento,
que valem o meu sorriso
voltar lá sempre preciso.
O que busco? Nem eu sei!
Talvez o canto do grilo,
talvez meus passos de criança,
talvez a serenidade
o meu grito de despedida ou de esperança
ou será a saudade?

natalia nuno
rosafogo





O poema da desmemória...



Nada pode mudar o tempo
incessante, nem sua impiedade
só a memória procura claridade
em um ou outro instante que ainda
no peito me arde
o tempo desdenhoso fere-me de saudade
e o horizonte do poema obscurece
e assim permanece triste,
num estado de letargia.
Esqueceu de celebrar nossa festa
mais íntima, o teu falar-me
ao ouvido, de incendiar nossa hora,
falta-lhe o que sinto e o que sonho
a alma da saudade que chora,
a solidão de quem procura
um pouco de amor,
outro tanto de ternura.

Nada pode mudar o tempo
mas o Poema não esquece a verdade
do que guardo em mim mesmo
nem nosso amor vestido de simplicidade,
o riso ou a lágrima da minha saudade,
e as páginas que ficarem despidas
ainda assim me ouvirão,
apaziguarão minha alma e minha vida.

O Poema é o esconderijo, o abrigo,
a lágrima solitária que trago comigo.

natalia nuno
rosafogo