quinta-feira, 25 de outubro de 2012

nunca é tarde de mais...





Agora sou folha de outono
prestes a ser levada p'lo vento
em dia aziago,
vai chegar o momento
flutuando sem rumo
na água dum lago,
como quem procura
água clara para beber
ou buscando a ternura
do teu olhar que me vem ver.

Agora sou folha de outono
levada pela correnteza
do rio do teu olhar
quando o vento não me cantar
vou amar-te de certeza
na orla do mar,
ou nas sombras dos pinhais
para quem tanto esperou
nunca é tarde de mais.

Agora sou folha de outono
quem pode saber para onde me
levou o vento?
para o recesso dos teus braços
para a loucura dos teus abraços
mostra-me que não há felicidade maior
que este amor!
dia a dia renovado,
que Deus nos tem ofertado.

Agora sou folha de outono
cega-me um forte clarão
nossos corpos submissos
escancarados
nosso olhar enfeitiçado
os corações amarrados
e um convite aliciante
fazer amor a todo o instante.

espero-te com a mesma ansiedade
das madrugadas deslumbrantes
e é sempre a mesma saudade
de nós jovens e amantes.

natalia nuno
rosafogo
imagem da net




segunda-feira, 22 de outubro de 2012

um sonho apenas...




lá no alto
está pousado um pardal
atiro-lhe uma pedrinha
sem o intuito de acertar
fico assim em sobressalto
foi só vontade de atirar
sinto ganas de rebolar no chão
de dizer parvoíces, gritar...
meus gestos ficaram na criança
ainda por lá estão...

balouço as pernas pendentes
meus cabelos são chuva de verão
e meus olhos são como batentes
em tudo pousam com sofreguidão
vou buscar os brinquedos
à casa da avó...
trago-os em segredo
pra não me sentir só.

o cão preso à corrente
ao longe o uivo da locomotiva
e eu sinto-me gente
sinto-me viva!

o que me falta está ausente
meu pai e minha mãe
e minha avó também
corajosamente,
prossigo sozinha
levo sonhos
nas mãos nodosas
e a criança em mim adormece
sente falta das mãos carinhosas
deita a cabeça
sobre um pedaço de bolo

mas que sonho tão tolo!

atrás duma cortina
de cores desbotadas
me vejo menina
de faces coradas
faço o caminho de regresso,
sem interesse
ah...se eu pudesse lá ficar
se pudesse!
lá no alto continua
pousado o pardal
e a lua
e eu criança sei quando faço
algo mal,
prometo não atirar mais pedrinha
deixem-me ficar
por favor, nesta infância minha.

natalia nuno
rosafogo

bem estar me leva ao orgasmo




quando escrevo, há sonhos
que se concretizam,
desejos que se amenizam
e minha esperança é a janela
de onde avisto a saudade passada
e futura
é o tudo e o nada
e as palavras recaem sobre ela
com formas de ternura
e a voz duma vida inteira

quando escrevo dói-me a alma
e ao fim duma tarde de canseira
volto atrás, procuro no entardecer
a calma
faço-me gaivota de novo em vôo
ah...se pudesse voltar além!
se pudesse ir mais aquém!
da criatura que fui e sou...
mas é tarde e a escuridão
apaga em mim os passos
abafa o soluço vindo do coração
tolhe-me as mãos e os braços.

quando escrevo há segredos
nos meus dedos
iniciam a escrever em liberdade
letras de fogo de fé e saudade
tombam porém em chuvas de loucura
escrevem e dançam
uma dança de amargura
a tudo alheios
à hora, ao instante, menos às lembranças
que estão presentes em abastança
agora e sempre plenas de esperança

quando escrevo sou como a rosa rubra
que exala o odor
aguardo a palavra que espero
livre
autêntica, que vibre
com paixão e amor...

quando escrevo o passado
surge iluminado
e o céu, o meu céu aqui...
mesmo ao lado
e ainda que me perca no futuro
e veja tudo em mim escuro
não me amarguro
porque me sinto maior
que o tamanho dum sonho

quando escrevo há um mundo
de felicidade
um bem estar leva ao orgasmo,
me põe um brilho no olhar,
um sabor doce na boca
logo tristeza é coisa pouca!
e as lembranças são viagem
no labirinto do meu pensamento
num vai vem surgem agora,
pra logo irem embora,
na aurora me vou lavar
estendo o meu lençol de luar
e escrevo até cansar...

breve tomarei o meu rumo
para lá da curva obscura
onde da vida me sumo,
porque um dia há-de ser!
chegará a desventura
num louco entardecer...


rosafogo
natalia nuno
















quinta-feira, 18 de outubro de 2012

um amargo de boca...





A menina que fui outrora
adormece na sombra dos meus olhos
que às vezes choram
com saudade.

Olhos redondos de pasmo,
e um amargo de boca
recordando-a com entusiasmo
e com uma saudade louca.
Há na memória lufadas de ar,
que buscam sinais
dos tempos,
do sorriso luzidio
do jeito que só ela tinha
dói, dói este rio
que em mim transborda,
no tempo que me alucina
e vejo feliz a menina
que outrora saltava a corda.

Meus pés andam...vão andando!
neste passo a passo sonho e aprendo
que a vida é como um amante
inconfortado, mesmo que muito
lhe querendo
nos deixa num instante.

O sussurro que me vai na mente
é como o bater do mar dormente,
e o quanto o coração bate,
a cada ruga que vai rompendo

quais os porquês desta hora?
lembrando a menina de outrora?
será saudade, ou apego à vida?
é a verdade da saudade sentida!

rosafogo
natalia nuno
imagem da net





sábado, 13 de outubro de 2012

a vida é bela!




os melros cantam
de forma exaltada
no peitoril da minha janela
e eu olho-os extasiada
logo à primeira hora do dia
a vida é bela!
a luz incendeia
até as palavras que escrevo,
luz efervescente,
como luz de candeia
inocente,
olho atentamente
o saltitar tão próprio da garotada,
a sua extraordinária alegria
o seu olhar de esperança
os gestos que são poesia
e minha alma sobe á copa da árvore
altiva,

sinto-me viva!

vou magicando
enquanto um gavião
se passeia p'lo céu,
lembrando,quando cheia de audácia
trazia a vida p'la mão.
Passaram mil anos de solidão
pergunto a mim mesma o que sucedeu
à pequena de cabelos despenteados
que olhava o céu de olhos pasmados.

agora marejados só de a lembrar...

no esplendor desta manhã
cantam os melros na minha janela
o dia pertence-me
meu coração está de sentinela
procurando a felicidade,
repousado e em tranquilidade.

o sol é agora côr de laranja
os melros empreendem o vôo
palpitantes se elevam no ar
desejosa de os seguir, vou
ao sonho implorar...

as horas passam com inaudita
velocidade
elevo-me da escuridão para
a claridade...

quero ser feliz!


natalia nuno
rosafogo



quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Mulher inteira!




trago saudades de ontens
hoje no peito
e adormeço no passado
num sonho perfeito
acordo e na realidade
não há nada
apenas a sombra da noite
e a saudade
e a aceitação de mais um dia
de existência parada

canto á chuva no meu sonho
todas as horas, são horas
de sonhar
horas de fazer, de decidir
de chorar ou rir
saber de experiência feito
trago saudades de ontens
hoje no peito

as rugas me circundam
os olhos
romantica trago ainda
uma balada
de esperança,
p'lo vento embalada,
o cansaço marca as olheiras
mas o sonho me faz viver
e apesar das canseiras,
eu me sinto,
ainda inteira
Mulher!

há dias em que a alegria
em mim esfuzia
em que me sinto enamorada,
outros, os sinto esboroar
em pequenos nadas,
meu tempo deixa de existir
vou fazendo a travessia
enquanto aguardo o porvir
trago saudades de ontens
hoje no peito.

Mais um dia
imperfeito...!





terça-feira, 9 de outubro de 2012

na terra do poema...



na terra do poema
tudo se cria,
manobra, dobra, redobra,
nela existe o enguiço,
o feitiço,
o sempre, a memória, a saudade
o presente, o acontecido
a alegria o rítmo multicor
o amor...

na terra dum poema renascido,
ventura e desventura
a esperança retornada
cachos de ouro da infância,
dramas sombrios da idade avançada
o correr exaustivo dos dias,
lágrimas por secar,
esperanças e desesperanças,
tristezas e alegrias
orvalhadas e luar.

na terra do poema
falo eu e falas tu
do chão de primaveras
do outono e seus odores
dos sonhos e das quimeras
de madrigais e amores.

fala-se de estrelas e luas minguantes
de sonhos de alfazema
e amantes,
manhãs de pássaros ...e assim,
na terra do poema
nasce mais um  de ti e de mim!

na terra do poema
há almas tocadas de emoção,
lábios quentes que beijaram,
homens e mulheres que amaram,
ternura tanta a que não resiste o coração.

na terra do poema
tudo se pode colher,
encantos, aconchegos,
linguagem delicada saída
do milagre dos dedos
dum homem ou duma mulher
esquecendo que o tempo lhe vai
roubando a vida

a poesia é uma beldade
todos lhe atribuímos valor
se não fôr escrita com amor?!
vale menos de metade...

rosafogo
natalia nuno