sábado, 24 de março de 2012

SILÊNCIO EMPEDERNIDO


























Há um silêncio impedernido
Moendo-me de saudade
De tudo que me foi querido
E fez minha felicidade.
Saudade que é erva daninha
Lembrança que faz doer
Mas que é minha....minha!
E que não quero esquecer.

Dor que não vai cicatrizar
E nem sei onde me vai levar!

Lembranças que passam em procissão
Neste silêncio entardecido
Lembranças que só calarão
Depois de ter morrido.
Minhas ideias se inquietam
São como cortina rasgada
A vida é pouca...muito pouca
quase nada...
Muda de cor a cada momento
Mais tarde ficarei só,
com o esquecimento.
Tão só,
que nem a saudade vem,
ninguém me espera mais além.
Ninguém...ninguém!
Trago as horas cansadas
O gesto tolhido,
palavras, as mais das vezes
desencontradas.
Neste silêncio impedernido.

Apenas sei que sou
A lembrança que em mim cabe
Para onde vou?
Sei que apenas Deus sabe.



rosafogo
natalia nuno

sexta-feira, 23 de março de 2012

GOTAS DE ORVALHO

Gotas de orvalho pousam na folhagem
Despontam os primeiros rebentos
Vem à memória a imagem
Da primavera doutros tempos.
A primavera da minha infância
essa que nunca esqueci
nem sei se de lá parti.

O céu azul, o rio corria
O cheiro da terra, o cheiro do pão
Os pássaros cantando terna melodia
E eu ali, raio de sol no meu chão.

Rouba-me o sono esta lembrança
Chega a doer esta visão
De me sentir vivamente criança
De arco na mão
Ali na minha terra quente
Onde aprendi a ser gente.

A sombra sobre mim cai...
E a vida já se esvai...

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 21 de março de 2012

SONHO INACABADO



















Nem a esperança incendeia já
 a vida
Agora que tudo se distancia,
desvanecendo-se na lembrança
perdida...
A mente entrançada em alquimia.
Resgato a saudade do esquecimento,
da solidão derradeira.
Passos desolados... desalento!
Olhos pendurados
Sem eira nem beira.

A esperança é um grito no vazio
Perdido o sorriso, o olhar frio.

Mas é grato recordar
Puder do tempo o pulso apalpar
Não deixar o sonho quebrar
Suster a angústia , docemente respirar
Pois toda a vida foi apenas esperar.

Cruzam-se na memória momentos
 partilhados
Meu pai, minha mãe calados,
da vida cansados...derrotados
de tanta canseira.
E eu os olhava, e, amava.
ali, sentada à sua beira.

Estranha é a vida, inquietante
passageira
Sei que nada posso...como tê los de novo
à minha beira.?!
O corpo se afunda a noite já desce
O tempo me acolhe, mas a memória
já esquece.
A esperança surge sem esplendor
Vou caindo, levantando,
desbravando em luta
contra o esquecimento.
A luz separa a noite do dia
E outro sonho já se anuncia.
Sonho que é meu abrigo e
a trave do meu pensamento.

Sonho inacabado...

natalia nuno
rosafogo

segunda-feira, 19 de março de 2012

EU E O TEMPO
















Encerro dentro das palavras
 o meu sentir,
esquecida de mim e de tudo.
Olho o horizonte a esbater-se
em cores abrasadas.
Outros amanhãs hão-de vir,
e outros mais hão-de querer-se.
O tempo e eu seguimos de mãos dadas.

Eu e o tempo
Estamos sós abrigados do vento,
com a vida imterrompida
O tempo porque não chove...
E eu com os dedos parados,
 nada os demove.
 Ninguém responde às minhas interrogações,
dúvidas e incertezas
Como se o tempo e o viver
fossem as únicas soluções!
Este tempo onde parece não haver nada
Onde tanta coisa se passa,
decepções, guerras, fome, desgraça...
E a minha mão escreve gelada...!
Tremendo, num jeito de ansiedade,
segurando a saudade,
que cresce em redor de mim.
Assim:
Como gotas de orvalho
em folhas de alfazema
da longínqua infância do meu
primeiro poema.

rosafogo
natalia nuno

sábado, 17 de março de 2012

INSOLITA ALEGRIA













Eu sinto e me extasio
Quando a lua me vem segredar
Que a noite está por um fio
E os sonhos em mim pernoitar.
Sinto a minha alma tocada
Meu coração sossega no peito
O amor acontece lá mais na madrugada
Nesta noite de tempo perfeito.

O sonho toma conta dos meus
sentidos
Num sossego me detenho
Me aconchego em pensamentos
estremecidos
Lembro os rostos que beijei
no aroma da infância...
Nem sei se me acostumarei,
a esquecer a distância.

Dói-me a recordação
que trago no olhar
e no coração,
da criança sentada à sombra do loureiro.
Amada p'las nuvens e p'lo rio
Nascente de luz e cheiro
Que nesta noite do tempo acaricio.

Insólita alegria
Que ainda em mim sobrevive.
Nasci olhando a água, era dia
de tempestade,
do ribombar do trovão.
Desse tempo a saudade...
ainda trago no coração.

rosafogo
natalia nuno

CERTAS HORAS












Labirintos percorro em certos dias
Que vão do sono ao adormecer
Certas horas de invernias
Onde não sou, nem deixo de ser.
Não chego a um entendimento
nem sei se durmo ou estou acordada
Não sei se sou real e me impaciento
Não sei se morro, não sei nada.

Sei que já vai longa a distância
Sei que é demasiado o caminho
Sei que lá atrás ficou a infância
O frio me toca a morte pertinho.

Não sei se o que me espera
 é dor maior
Se a solidão é meu destino
Já não sei dos meus olhos
qual a cor
Nem que será de mim eu descortino.

Bato asas no silêncio tempo fora
Já nada sou, não sou ninguém!
No peito um coração, mas por hora
Tão pouco importa, nem sei a quem.
Neste meu nada entra a solidão
Dos dedos escorrem palavras de agonia
Ah...mas cá dentro o coração
com esperança dum novo dia.
E tudo muda, ideias e sonhos
Tudo em mim desperta, extravasa,
nos meus sentidos com alegria.

A vida é luz, em mim se cumpre.
com humildade.
E con(sentida) saudade.

rosafogo
natalia nuno

quinta-feira, 15 de março de 2012

ENTRE MIM E MIM












Entre mim e mim
Já nada existe de outrora
O tempo tudo levou
sem demora.
Ficou meu coração amargo
E a memória em desespero
E esta saudade que não largo
E tudo o resto que não quero.

Entre mim e mim
Há um rio de distância
Uma insuportável loucura
Já nada tem importância
Tempo que me cabe, nada bom augura.

Entre mim e mim
Transporto apenas a vontade
O resto é nada é viver à toa
Trazendo a saudade
E a tristeza que magoa.

Entre mim e mim
Há imagens que mal reconheço,
e um lugar que nunca esqueço.
Na memória o passado,
no olhar o futuro sem alento,
olhar cansado porém atento.

Entre mim e mim
Apenas o sonho pesa!
Passageiro com lembrança
nesta viagem que não pára.
Reza...na esperança,
da ferida sarar,
Mas que o tempo agrava e não sára.

rosafogo
natalia nuno