segunda-feira, 5 de junho de 2023

ave transviada...

permito que o silêncio me traga obscuridade
e sonhos de saudade, onde me acolho
arrebatadamente, escrevo um poema,
todo o meu pensamento a arder 
sem saber, o que ditar-me, para nele escrever, 
nem qual o tema, e detrás do silêncio, 
o coração que não sabe aquietar
relembra, velhas cicatrizes, 
mas logo me põe a correr,
- em dias felizes,
nesta leve e fugaz inspiração,
deixo que o sonho adormeça nestas linhas,
e esqueça, que os sonhos não regressam.

uma ave transviada me angustia
delírios me levam a outro tempo, a outro lugar
que palpita nas minhas veias,
que agonia, sonhar as noites cheias da infância,
acarinhar os antepassados, e ao acordar
só a vida sem alento, 
enterro este frágil passar na fronteira do presente,
num azul firmamento.
abre-se a janela ao coração de par em par
e uma lágrima seca, cai-me do olhar

a recordação chega e já fico confusa
o passado é irrepetível e lembrar traz-me 
pesar, o frio amontoa as ausências dos que
partiram, é este o preço cruel do tempo
ouço o chorar do velho rio que corre,
que pesadelo neste meu destino adverso
corre a vida vencida, também ela morre,
parto, sem escrever nem mais um verso.

natalia nuno
rosafogo




sábado, 3 de junho de 2023

o peso dos dias...




o tempo vai tecendo suas teias
suga-me a memória e as ideias, 
fico descuidada e só
girando nas lembranças
vêm a mim imagens ditosas
e desato mais um nó.
passa a brisa do salgueiro
o riso do amanhecer, o rio a correr
e tudo o que amanhece vive em mim
belo, assim, da vida para a vida.

meus olhos são bagos maduros
trago neles o peso dos dias
e o desassossego dum silêncio 
ensurdecedor, no coração
o fogo retido dum grande amor.

afundo o olhar, para querer decifrar
o que ainda me sustém,
se o tempo sem memória
ou o que ainda à memória me vem.

natalia nuno
rosafogo


quarta-feira, 31 de maio de 2023

laivos da memória



as palavras saem dos lábios
e fogem, levando momentos
intensos de saudade,
de sonhos de vida, de quem acredita
na felicidade, 
de quem vive com  avidez
a vida, sem sequer esquecer,
que o tempo lhe traz fragilidade
caminha levando consigo pedaços
de recordação
cansados os passos.
crescem as sombras dentro de si
frágil é sua memória
amargo é o frio e a solidão
rotineiros no seu destino,
descansa o sorriso lá atrás
onde o tempo era ouro,
já nada a satisfaz, 
a vida é agora desatino.

passos que não parecem seus
embora ame o que foi,
é como dizer um último adeus
com um olhar que dói.
perdida a imagem
segue-a um vazio deslizante
igual àquele que nada possui,
nada aguarda,
mas traz ainda a coragem
de encarar a morte que não tarda.

natalia nuno
rosafogo





segunda-feira, 29 de maio de 2023

dura lucidez...



a manhã acende e o sol fulge na cal
branca das paredes, das casas
onde um dia houve vida,
há borboletas alegres abrindo asas,
e uma buganvília perdida.
as rosas vão desprendendo fragrância
por toda a aldeia, 
lembro a dourada suavidade da infância,
a tarde morna, a hora da ceia
a vida é um instante
as memórias não morrem
só o tempo ficou distante!
a gota de água que floresceu e caiu
no ramo mais firme da roseira,
era lágrima furtiva, que ninguém viu
a dureza da alma, o final do estio, 
chegando à minha beira.

apaga-se o ocaso
e a sombra ameaça
desvanece meu coração atormentado
a recordação me abraça
por perto o canto puro do rouxinol
e o sol, que fulgia nas paredes
brancas de cal
lembram a rapariga airosa, a tal
que hoje envelhece, desde então não vive
e no olhar já nada transparece.

natalia nuno






terça-feira, 23 de maio de 2023

longo caminho...



esta minha vida inteira
é agora um céu de sóis furtivos
sem constelações alegres
nem sonhos vivos.
trago os sentidos sobressaltados
numa inquietude que me arrasta
para uma obscura solidão,
turva a minha visão
e leva-me p'la mão.
faz-se sentir o peso dos dias
não é fácil deter o tempo fugitivo
nem o desassossego que ferve 
em meu coração,
e assim vivo 
com lavareda que me cega
e o esquecimento já me pega.

já não sei, se é o tempo que me ensombra
ou a mente que não quer recordar,
ou os anos sombrios que descendem
sobre a minha orfandade
em momentos de saudade.


natalia nuno
roafogo
imagem pinterest

quarta-feira, 17 de maio de 2023

grão a grão


como água em debandada
foi-se a minha alegria
lágrimas à beira do vazio
nos confins sem tempo
vai a minha estrada...
e eu tão só na nostalgia,
simples o resumo da vida
que voou entre meus dedos
intensa, dizem as linhas da mão
ora oásis, ora deserto
- grão a grão, sem medos.
ouvindo o sangue à distância
na janela de par em par aberta
do coração de criança, sempre
alerta...

como água em debandada
agora mais negra, mais cansada
 -vida é só já, chapinhar!
com desolada luz me alucina o olhar
já não sou a menina, trago dedos
de solidão e a saudade
que floresce feita obstinação.

natalia nuno

segunda-feira, 15 de maio de 2023

ecos vazios...



vagueia a memória numa rajada de vento
até ao último suspiro, até ao esquecimento,
restam as palavras que invento
foi a vida ora tranquila 
ora triste e incerta
rotineira, e ainda assim tão fugaz
como vento que me desperta
me atira para parte incerta
de onde fugir, não sou capaz.

final tortuoso, onde deixei de ser
para apenas parecer.
e o vento murmura para si
«lamento mas esta estrada abrupta é para ti»
ecos vazios ao relento
e cá dentro, um perfume de ansiedade
e a bater, um coração de saudade.

nnuno