quarta-feira, 19 de junho de 2019

ter o céu por perto...



quero fugir para bem longe
para o silêncio das coisas
onde só oiça o bater do coração
no teu peito...
e nessa doçura delicada, deixar-me
no ventre da lua,
em delírio, exausta e saciada
no doce silêncio de ser tua,
matando a fome do teu corpo, e a sede
do meu, deste peito cheio de afecto
e ter o céu por perto.

deixar irromper o beijo
adormecer no aroma do desejo satisfeito,
ah! e depois deixar acontecer
fechar os olhos e de amor deixar-me morrer.
neste coração silencioso baila a lembrança
saudosa, de te amar estremecidamente,
e no calor dos teus braços, o meu corpo
inteiro estremecer
num suspiro, após suspiro.
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a minha mente, ainda sente,
o odor do amor onde me embriago
a respirar de saudade, da paixão
que ainda em mim  trago.

natalia nuno
rosafogo

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segunda-feira, 17 de junho de 2019

os pássaros me esperam...



os pássaros me esperam
cantam nos meus sonhos sombrios
como se entendessem que quero vencer
a tristeza e os frios que de mim se apoderam,
minha memória é a nascente
saciam a sede nas minhas mãos em concha,
cantam até se extinguir o dia
fazem dos meus sonhos semente,
do sol pôr até à aurora fria.

ao longe já a calhandra rasgou o céu
o tempo já pouco faz sentido, e eu...
meus olhos lançam-se ao esquecimento
e de momento a momento, sigo perdida
como água errante que não modela o rio
cotovia na noite escura...ferida!
choro por dentro, fica o coração vazio.
saudade de tudo que sumiu.

saudade volta sempre a mim, desencadeia a primavera
e os pássaros ficam de surpresa à espera,
à espera dos sonhos com luar
do viver com ventura intensa
com manhãs de verão, e as portas do coração
abertas de par em par, com alegria imensa
com esta emoção que me prende a garganta
e esta saudade tanta...

natalia nuno
rosafogo
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sexta-feira, 14 de junho de 2019

no lusco fusco da mente...



quem escreve poesia, entra num sonho
que chega sem se anunciar
como o aroma do jasmim que se sente
ao passar...
saboreia os versos, enamora-se das palavras
liberta-se da dor, entra numa aventura e sente
que não está só,
como se uma trepadeira se expandisse
lhe subisse aos sentidos,
e fizesse renascer os sonhos ardidos.
escrever poesia, é afundar na saudade
é deixar vir tudo à lembrança, é ter a felicidade
de encontrar-se de novo com a criança
que no sonho adormeceu. mas ficou de
pedra e cal, a acenar à vida, com fé e
esperança...
surpreendida com a rapidez do tempo.
escrever é viver, é ressurgir da neblina
num dia enublado, a qualquer hora pode ser
abrir a alma, e deixar avançar na memória
a menina, a que desperta sempre como semente
e por mais que disfarce, o coração a sente.

é tarde, no lusco fusco da mente
há uma manta de retalhos
onde as lembranças, são carreiros de formigas
que caminham docemente, como se fossem meus
agasalhos. ou as vozes amigas
me lembrassem uma história que já não lembro
e ainda houvesse ouvidos pra me escutar
e mãos para me acariciar...

ninguém me tolherá o pensamento
nem o passo, nem de escrever o sentimento
porque se o faço, a água do rio por mim escorre
em liberdade, e eu deixo-a percorrer
este meu corpo feito saudade que não morre,
como o sol que sorri e chora
serei eu assim também, até que chegue minha
hora.

natalia nuno
rosafogo
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sábado, 8 de junho de 2019

ladainha...



quando ainda é noite, mas também já é manhã
canta em mim a saudade, lembrando
os passos da mãe no sobrado
a ladainha da avó rezando
enquanto à espreita já o sol pelas frestas do telhado.
a vida já não tem o mesmo sabor,
nem aos meus ouvidos vem o rumor
do rio, quando ainda é noite, mas também
já é manhã, e ele corre com destino certo
e eu de sono esperto
com as ideias em trampolim,
sonhando, tentando descobrir ao que vim.

o sol continua a espiar-me, fazendo um bailado
nas paredes do quarto pequenino
como que a desafiar meus gestos parados
ladino, beijando-me a face
deixando o perfume no ar
e eu oiço os pássaros a acordar
com seu chilrear em festa
quando ainda é noite e a manhã já se avizinha
canta a saudade em mim de novo até à noitinha
e o sonho é tudo o que me resta.

a mãe abre as janelas ao vento da manhã
e abre-se o dia em que a gente vive e sente
que há sempre uma pedra p'lo caminho,
e na minha ingenuidade em flor
sonho e não adivinho
como fazer para acabar este poema de saudade e
de amor...
quando a noite voltar e e ainda não fôr manhã
vai a lua enredar-se, meu coração deste jeito,
continuará a sonhar.

natália nuno
rosafogo
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quarta-feira, 29 de maio de 2019

fragmentos deste dia...


os dias quase felizes
quando recordo minhas raízes,
ninguém sabe até onde meus pensamentos vão
abro as janelas do peito, e
ninguém sabe quando há chuva  ou sol no coração.
vou arejando p'lo caminho
num passo que já não voa, não corre,
mas o sonho, vive em mim, não morre.
às vezes, a alegria faz-me companhia
como o sol que chega e cobre a areia
quando a noite se desfaz em dia
e, deixa lá atrás a lua cheia,
subo ao céu azul intenso
onde o sol planeja, e o mar me beija.

aspiro o ar que o vento faz mover
e o mar beija-me os pés com ternura,
ali fico a ouvi-lo num sussurrar de afecto
até ao surgir das estrelas com o anoitecer
e num sossego perfeito, aconchego-me ao teu peito
e sei que é sonho...eu sei!
os sonhos para mim foram sempre de esperança
sonhos, são promessas que trago de criança.

natália nuno
Monte Gordo
28/05/2019
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dormência dos sentidos...





este cansaço nos olhos
este tamanho emurchecer
resto de farrapos, escolhos
caixa de medos a que me entrego sem querer,
murcham comigo as rosas
os sonhos, eles que eram mariposas
já não voam,
exausta, oiço vozes no silêncio da minha surdez
quem sabe sejam os ventos que me trazem os medos
à memória que se despenhou de vez.
tudo agora é despegado de razão
tudo é, coisa nenhuma
o vazio da alma o adormecer do coração
a dormência dos sentidos
nas noites que vão passando uma a uma
a violência do tempo, é ferida que não cura
moldou-me como o mar molda a areia
com batida que sempre dura
fui menina de sonhos desde que nasci
e por sorte serei até à morte
sei ao que vim, tanto me dei
e tão pouco a mim!
sou agora um outono desfeito
à espera que a longa noite chegue
com a solidão dum grande mar
à espera da manhã que não virá
nada sou nada serei, minha voz se calará
e mesmo assim de forma estranha
esta saudade que me acompanha
para sempre ficará
na solidão do que escrevo.

natalia nuno
Monte Gordo 29/05/2019
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quinta-feira, 23 de maio de 2019

verdade que me desalenta...




dedos de solidão vão desafiando
recordações,  como um sopro de vida
permanente, e o coração sangrando
como se o  resto da vida, estivesse por Deus
esquecida...
dedos de solidão que abrem às memórias
passagem,
incendiando a saudade,
onde cai cega a impiedade
quando me lembra agora a minha imagem.

quanta mudança depois da última vez
que me vi
reconforta-me a esperança, olho atrás e
foi o tempo que me perseguiu ou eu o persegui?!
queixo-me de saudade em vão
agora todo o dia é já penoso
mas o meu coração é ainda corajoso
vou esquecer em vez de lembrar
«olhos que não vêem, coração não sente»
mas há alguma verdade que me desalenta
vejo-a ao me olhar, só o amor me contenta

às vezes, digo-me triste chorando
que o tempo se tornou um peso
creio que se está vingando
por eu andar sempre distraída
e agora ao ver-me caída,
traz até mim com doce fala, a saudade
e os meus dedos não me impedem
de lembrar, a que ficou no tempo a sonhar.

natália nuno
rosafogo
imagem da net