quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

a saudade em memória...



oiço a respiração do silêncio
tudo no escuro parece assombração
há molduras abandonadas na parede
pára o meu coração e
na garganta a sensação de sede.
sente-se o bolor, a humidade
manchas amareladas fazem parte
ainda assim a saudade
eu sinto, das filhós na lareira
feitas com arte...
entra o vento pelas frestas da janela
treme a torcida na candeia
aqui estou a esperar por ela
tarda nada é hora da ceia
encostada à parede a mesa
com toalha branca desenxovalhada
passada a ferro como quem reza
pela avó que em solidão se sente
abandonada...

os pratos na cantareira
os talheres da bisavó
neste dia é grande a canseira
e eu ali estou, sentada na minha pequena cadeira
aguardando a minha filhó
na casa vazia, oiço a lenha que estala
e há fantasmas que vêm comigo à fala
em frente à janela pequenina
avisto a macieira, lá em baixo o laranjal
no meu quarto a mesa de cabeceira
onde ponho as memórias deste Natal
este é o refúgio da minha imaginação
onde o silêncio é total e o sol já vai a pique
brinco à apanhada no adro e o sino pede
que eu fique...  a lembrar-me que ali pertenço
ele estará sempre nas dobras do meu coração
será sempre constante o amor à terra,
este amor imenso.

natália nuno
rosafogo





terça-feira, 25 de dezembro de 2018

pensamento...



Mil pensamentos chocam-se no cérebro, recordações, frases sem sentido, gritos da alma, e a vida murchando como um balão que perde o gás e o desespero a extravasar como a água que não vence a barragem.

natalia nuno

gente com quem cruzamos...



há gente com quem cruzamos
trocamos olhares seguimos em frente
gente que não conhecemos, mas que amamos
porque nos fizeram lembrar alguém
mas, depois olhando bem,
afinal nada mais era que apenas um desconhecido
que o nosso olhar não vai mais lembrar.
há gente que muda nossa vida, outra nosso dia
uma carta que chega, uma companhia
ninguém sabe o quanto é importante
por momentos na vida da gente,
nem o que o coração sente
quando damos de frente
e nos fazem lembrar alguém que partiu,
e o olhar nunca mais viu
e naquele momento se tornam para nós reais.

admiro a memória que não quer esquecer,
e serve-se de tudo para relembrar
esperando sobreviver
e o coração agitar...

quando a noite não desiste de me trazer
a insónia, relembro tanto com rigor
dos pormenores de há muitos anos atrás,
e sou como o galo cantador, capaz
sem perceber como, passar da realidade ao sonho
nas ilusões das madrugadas e isso me satisfaz...
os meus olhos já não choram
p'los que se foram embora,
estarão de pedra e cal no coração
de olhos fechados os recordo agora
nesta noite fria...
mais uma vez no sonho da noite, na escuridão
mas hei-de voltar sempre mais um dia,
ás memórias que não quero perder.


natalia nuno
rosafogo




sábado, 15 de dezembro de 2018

Boas Festas aos amigos que visitam meu Blog

MAIS UM NATAL MAIS UM FINAL DE ANO...sempre que qualquer coisa acaba, sinto-me um pouco perdida, ansiosa, não sei se deva olhar para trás, e olhar o que perdi, ou olhar em frente e acreditar que ainda alguma coisa boa irá acontecer...assim espero para mim e para todos os meus amigos! BOM NATAL E UM ANO NOVO, SEM MUITAS DIFICULDADES, e que todos tenhamos pelo menos o essencial para vivermos uma vida digna. Abraço-vos.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

efémero vôo...



Vão-se todos os meus dias
numa febril inquietude,
calada pena os meus olhos
apaga, as palavras perdem-se na bruma
insistindo em deixar-me, uma a uma.
apagaram-se os anos lentamente
tenho agora o tempo que me resta
que serve para tudo e para nada
o coração já não se sente em festa
e a paz que tanto queria traz-me fatigada
dias que esculpem meu rosto obstinadamente
e a inquietação deixa-me prisioneira
o tempo mede-me o pulso com desejo voraz
com olho de falcão furiosamente...
não me deixa em paz!
crava as garras na minha memória
mas eu, entrego aos dias o meu ser
e prossigo inteiramente com o sonho
meu... este que sempre me habita
meus olhos criam uma estrela
quando surge a obscuridade
cruzo-me com a saudade
e meus passos encaminham-se
para uma audaz primavera
abre-se a noite
e eu volto a ser quem era...

natália nuno
rosafogo



domingo, 9 de dezembro de 2018

eu sei que é sonho...eu sei!




eu sei que meus dias são quase felizes
quando recordo minhas raízes,
ninguém sabe até onde meus pensamentos vão
nem por onde andam meus olhos errantes
nem as lágrimas que neles se acendem,
nem quando há sol ou chuva no meu coração.
abro as janelas do peito e a aragem entra
vou arejando p'lo caminho num passo
que já não voa, nem corre,
mas o sonho continua e não morre.
às vezes a alegria faz-me companhia
ponho no rosto um sorriso
aspiro o ar que o vento faz mover na verdura
subo ao céu azul intenso onde o sol flameja
encho o peito de ternura e ele me beija,
fico numa paz perfeita, aconchego-me a ti
eu sei que é sonho ...eu sei!

mas é um como real acontecimento
e minha alegria desperta,
sonhar com a felicidade é alegria certa.
rubra de paixão, olho a vida com profundidade
com o pensamento numa doce recordação
hoje sonhadora, banho-me nesse mar da saudade
já tão distante...guardo a recordação em mim
e minha alma verte doçura
turva-se de lágrimas o olhar, era tempo de amar!
não está esquecido o beijo dado, nem o roubado,
generosa idade, dela sinto saudade.

nos sonhos da noite, volto a reviver
o tempo desfolha eu sei, mas hoje do presente, não sei
nem quero saber...

natália nuno
rosafogo





quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

à procura de paz...



invejo as árvores silenciosas
invejo as folhas que o sol doura
invejo a terra de tojos juncada
e o campo de trigo que o tempo já aloura
as vinhas generosas, de folha avermelhada
tudo se move alegremente com o sopro do vento
e eu feliz por existir... é meu contento
longa subida esta que me faz arquejar
rumorosa a vida, e eu continuo à procura
dum lugar...
como sulcos  da terra, o rosto de rugas coroado
duras são as palavras, mas o poeta
vive a mim agarrado.
meu pé pisa o chão da saudade
e o dia de hoje é melhor que ontem
mas nunca foi a felicidade...

o tempo  terá suas razões, mas eu o ignoro
fantasio, crio manhãs e tardes d' ouro
quebro o gelo no coração
e nas noites surge sempre mais uma recordação
o vento corre a meu favor
traz-me recordações da infância
onde eu e outras caprichosas flores
odorávamos os dias de feminina  fragrância

natalia nuno
rosafogo