segunda-feira, 13 de outubro de 2014

enlouquecida...



tal como uma criança que se inebria
eu sinto, sinto meu coração a bater!
o corpo se entrega à dança, rodopia
neste amor, quero deixar-me morrer

intacta, tão grande é minha saudade
tanto quanto o céu entre as estrelas...
jorra o sol bem no coração da tarde
pinta-me o rosto em sombrias aguarelas

sem tempo, sem limite e nem medida
meu temperamento é agora de paixão
olho o negro da noite... negro carvão

embebeda-me de promessas a vida
q' importa ter mais ou menos idade?
se sou Poeta e dou a mão à saudade.

natalia nuno
rosafogo


domingo, 12 de outubro de 2014

odor a jasmim... recordar o passado



são poucas as palavras por dizer
sinto-as imóveis na garganta
numa desolada hesitação
e o olhar vai-se a perder
esgota-se na imensa vastidão,
insegura é minha presença
os passos o vento arrasta
a saudade de ti é imensa
cerca-me a solidão...
refugio-me na noite silenciosa
sinto na pele a falta da tua mão
como uma orfã com medo
que cresce em mim e é obsessão.

o silêncio leva-me distante
enquanto a água me ensombra os olhos
deixa em mim a tua recordação
e aquele rio de amor...
odor a jasmim nas margens, é
ternura com  que te abraças
ao meu corpo incendiado,
contemplo agora teu rosto
e sonho, com o sorriso nele derramado

prende-me o sonho colorido
por ele passam os dias da minha vida
perante meu olhar comovido
e a memória quase esquecida

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

tudo se me escapou...



já o sol partiu do jardim,
não encontro em mim
aquela vontade... o pensamento
se esquiva, meu voo é curto e fatigado
a esperança é o fio a que me atenho
e para que viva...
a saudade de onde venho.

voam os pardais de asas empapadas
trago no rosto o final de Agosto
o destempero do tempo
e as marcas pesadas,
já me apresso
antes que o tempo me consuma
à vontade já nada peço
o fogo é extinto, nem passado
nem presente, nem coisa alguma

tudo se me escapou
nada volta ao meu peito, nem o vigor!
resta-me a paz e o ror de horas
em pensamentos vãos
até que as palavras me voltem às mãos...

natalia nuno
rosafogo

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

pequena prosa...



Penso em como a felicidade nos fortalece e a dor nos enfraquece à medida que o tempo passa...ver os filhos e os netos tornarem-se homens e mulheres, faz-nos abolir do pensamento a passagem do tempo, faz-nos perder a noção de que ele passa e não perdoa, tocando-nos com a sua mão invisível...e quando nos apercebemos os anos felizes e descuidados passaram, são agora como um rosário de orações rezadas.

natalia nuno

rosafogo

sábado, 4 de outubro de 2014

ponho a mente de vigia...



sem grande barulho abre-se a porta
sem que nela alguém tenha batido
alma d'outra mundo... gente morta
talvez...só coisas do meu ouvido!

no limiar... uma silhueta sumida
parece-me até de candeia na mão
ao olhá-la sua carne parece lívida
e os passos são pesados no chão...

rio-me deste sonho d'tanta loucura
olho a porta num trejeito de troça
mas ali volto a ver uma fina figura
que não é a minha e menos a vossa

brilha nesta noite imenso clarão
um pressentimento entra e invade 
meu corpo que  treme de emoção
à vida vai-se agarrando c'vontade

na verdade não passou duma visão
que espero a outro sonho não volva
q' vacile sempre a morte no meu chão
e que a vida cega e muda tudo resolva.

natalia nuno
rosafogo



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

ébria de palavras...



Guardo palavras num frasquinho
como se fossem doce ou vinagre
as vou espalhando pelo caminho
vivendo esp'rança em tempo agre

e assim entre beijos inacabados
o olhar repouso, acalmo o desejo
trago os sonhos com nós atados...
e a esperança na promessa d' beijo

é já na hora tenra da madrugada
q' gritam os pássaros com ternura
na luz que avança leitosa azulada
a gente se ama, é nossa a ventura

amor me fio, janelas escancaradas
deixam entrar os ventos da aurora
e as vestes p'lo chão amarrotadas
é hora do amor... é do amor a hora!

Tudo que tem sombra é sombrio
quando não se alcança o sol à mão
E a vida ás vezes presa por um fio
e aí nos amarra d' dor e compaixão

no pomar tão brilhantes as cerejas
nas moitas sol aceso nos azevinhos
brilham mais m' olhos se os cortejas
acolho o cortejo dos teus carinhos

natalia nuno
rosafogo

terça-feira, 30 de setembro de 2014

tempos de engano...



Continua o vento...
dá gosto ouvi-lo forte nos pinheiros
agora mais lento sobre os cardos roxos,
piam os mochos...
o tempo a fugir e o vento a rugir,
 a água dos olhos a verter
e a esperança a querer morrer,
vai o pássaro voando do seu jeito
vai a vida fugindo-me do peito.

é tal o movimento da ave no ramo
que seu canto parece pedir piedade
pedindo paz ao vento,
também eu clamo
mente solta... quero liberdade!
já não há vento que me atormente
nem pássaro desolado a fazer-se ouvir
nem mal que em mim assente...

o vento está de partida
esquecida de mim, pensamento vazio
olvido a vida, que a vejo a levar-me,
nada, ninguém pode ajudar-me

só não me priva a doce esperança
e o doce amargo da lembrança

natalia nuno
rosafogo