domingo, 3 de julho de 2011

ESCREVO PARA FUGIR



Não basta, não basta querer
os passos deter!
Sempre mais uma ruga no rosto
Carregada de mágoa infinita
Onde o silêncio tem seu posto
Assim, não nos deixa esquecer
E nos traz este sentimento inquietante
Porque sempre se acredita
Que a morte vem distante.

Escrevo para fugir
Pensando o tempo enganar
De que serve outro caminho seguir
Se a morte acaba por chegar?

Não basta, não basta querer,
fazer contas de cabeça
Que a morte há-de aparecer
Não há nada, nem ninguém que ela esqueça.

Não basta, não basta querer
Também o sol deixa o horizonte
Um dia a morte vai trazer
beco sem regresso, lágrimas que farão a ponte,
o silêncio que indica o fim.
E fará à terra a entrega de mim.

rosafogo
natalia nuno

imagem retirada do blog para decoupage.

ÚLTIMO INSTANTE



Devagar subo a ladeira
Olho os goivos e os malmequeres
Até que Deus queira,
Lá vou subindo o empedrado
Será que ainda me queres
Com a força do abraço apertado?
Ouço o rumor da vegetação
Sinto o frémito do teu abraço
Espero um sinal de ti
Um sim...ou não!
Para te seguir sem cansaço.

Surge um cheiro a maresia
E eu descanso da viagem
Espero a hora, anseio o dia
Para erguer os olhos com coragem.
Já me confunde o vento
E o gotejar da água
Nenhum rumo, nenhum lamento
No teu lugar mora a mágoa.

Ouves os pássaros que não cantam?
E o rasto das nuvens que choram?
Caem gotas na lembrança me desencantam
Minhas mãos postas já não oram!
E assim meu olhar endurece
Meu sorriso é estrela cadente
Faço agora uma última prece
Para que o amor em nós
seja sol nascente.

Já o vento atravessa as folhas
Deixando-as por aí à solta
Meu amor quando me olhas
O amor me trazes de volta.

rosafogo
natalia nuno

MINHAS PISADAS



Formigas trabalham o dia inteiro
Limpando, carregando o celeiro
E eu libelhinha distraída...
Esvoaço, com medo da vida
Que me faça cativa...
Me estenda uma cilada
Me deixe de asas caídas
Ser e não ser... não ser nada!
Minhas palavras emudecidas.

No vaivém do vento
Andam lágrimas em desespero
Ânsia de ter livre o pensamento
E os sonhos? Para que os quero?
Já vou alargando o passo
Descalça sigo em liberdade
A terra vai apagando meu traço
Meus anos se queimaram na saudade.

natalia nuno
rosafogo

sexta-feira, 1 de julho de 2011

NEGO QUE TE AMO



Nego que te amo obstinadamente
Nego que te quero à boca cheia
No meu olhar o amor é transparente
E meu coração ao teu se enredeia.
Como é ingrato envelhecer!
Ver-me nos teus olhos e sentir
Que sou água que corre por correr
Não aquele rio de verdade
Que se perdeu no tempo e é saudade.

Nego que te amo arrebatadamente
E o tempo já não sorri pra mim
Trago sede do amor de antigamente
Que enchia os corações de odor a jasmim.
Agarro-me à lembrança do teu rosto
E meu coração ainda vibra e clama
Para mim o amor é ainda uva em mosto
Há fogo nas entranhas de quem te ama.

E a vida é chuva derramada no olhar
É noite em mim, apagada a esperança
Já os sonhos partem do cais, deixei de sonhar!
Sonhos são apenas minhas relíquias de criança.
Cantam nas minhas mãos melros em liberdade
Encandeio-me  no sol que me queima
Meu pensamento fica inacabado
Só a saudade,
Teima
Neste amor engendrado
Nos teus braços,
ficou tudo o que sonhei
Ainda sigo teus passos
Deste amor não me libertei.
Vou lembrando-te, entre os aromas da tarde
E de pés descalços corro na saudade.

rosafogo
natalia nuno
imagem do blog-imagens para decoupage

quarta-feira, 29 de junho de 2011

RIO DA MINHA INFÃNCIA



Ó rio que tanto choras
Por entre pedregulhos e serras
Num delírio que faz as folhas tremer,
 saudade encerras
Vai, vai sem demoras
Que a saudade é o sopro do meu viver.

O Verão, vai escaldando o chão
Nas margens desperta o pintassilgo
Silêncio a resgatar meu coração,
e saudade da infância , levo comigo.

Já se vão os pássaros e seu arrulhar
Resta o odor molhado da terra fragante
O vento zunindo a ameaçar
E meu corpo vive palpitante
Esta felicidade que o inunda
E me leva a alma ao espaço
Numa profunda,
paz.
A que me abraço!

Jáz
O dia,
o sol já não incendeia, e a criança
olha o rio com esperança,
com alegria.
As arvores vão balouçando
As águas partindo
E eu pra mim mentindo
Que estou chegando...

Resta o murmurar da alma da saudade
As dores do meu peito
As lágrimas choradas
Esta paz fatigada, que não é de verdade
Já nada é perfeito!
Meus dias naus em ti ancoradas.
Onde estou?
Ò rio...ó rio
É como se o tempo me sepultasse!
Meu coração está vazio
Como o sangue nele parasse.
Quem sou...quem sou?

Não me conformo com o presente
Respiro assim vivo e penso
Mas meu coração sente
E cada vez mais me convenço
Que a vida é utopia.
Do ontem que esqueci!
Do amanhã que não vi.

Penso, com humilde sabedoria.
Que hoje vivo, hoje morro.

rosafogo
natalia nuno

GERÊS, 27/06/2011

terça-feira, 28 de junho de 2011

AMANHÃ



Correm rios,
entre serras e penedos,
numa ânsia de chegar.
no meu coração regatos bravios
numa ânsia de te amar.

Há borboletas em preguiça
esvoaçando,
por entre a ramagem
minha alegria é postiça,
vou talhando
a jeito minha escrita
em misteriosa linguagem,
linguagem de quem grita.

Correm rios, corre o tempo
misterioso,
vai apagando meu pensamento
levando por veredas
meu coração saudoso.

Canta o sol sobre os valados
deixa raios beijando o chão
sobrevive tudo o que amámos?
ah...só dentro do coração!

Deito-me à sombra do salgueiro
ouvindo o murmurar da água
acaricio as folhas do loureiro
que baloiçam, tal como a minha mágoa.

calam-se as vozes das cigarras
insólita alegria minha
desprendo-me das amarras
meu peito desaperto, a felicidade
se aninha.

O sol acendeu as brasas
fez-se relâmpago no olhar do falcão
no sonho, vou abrindo as asas
só meus pés vão p'lo chão.

Passa esvoaçando um pardal
o assobio dum melro eu ouço
é que hoje sinto-me imortal!
amanhã quiçá no fundo dum poço.

No fundo do esquecimento
só no olhar cresce o céu
no coração o lamento
para trás, tudo o que é meu.

E em fuga o destino
Que me lança em qualquer mar
Enigma que não atino
que a vida tem, pra me ofertar.

Alto sonho que de mim se apodera
como se fosse um tornado
ai quem dera...quem me dera
ter nascido com o destino fadado.

Serei pássaro sem trinado
amanhã quando morrer
o sol maduro por cima do meu telhado
me dará contas de outro sofrer.

natalia nuno
rosafogo
GERÊS, 26/06/2011

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VERDE DE ESPERANÇA



Lembranças loucuras minhas
Memórias deste meu Outono
O mundo onde me abandono
Memórias traços de andorinhas.
Vão e vêem como os medos!
Como luz que se abre p'la manhã
Cascatas que meus olhos bebem
Da varanda dos arvoredos.
Tudo o que a mente
Presencia e imagina
Do quanto ainda tem presente,
da saudade de menina.

Vou desdobrando palavras
Com o tremor do vento
E há estevas que florescem bravas
Ao pulsar do Verão,
sem um lamento.
Enquanto, se lamenta meu coração.

Estou ficando demente
Chega a mim o aroma da infância
Na montanha a memória o sente.
A tristeza abre portas por entre a folhagem
E a criança é já miragem.
Dói-me a nostalgia
O tempo avança vorazmente
Cada pedra cai sobre o meu dia
E eu amo cada dia perdidamente.

natalia nuno
rosafogo
GERÊS, 25/06/2011