quinta-feira, 19 de março de 2026

da aldeia moça saí...




trago a mente abalada
como folha amarelada
caída da folhagem
de outono, morta,
lá fora cai a chuva à minha porta
cá dentro eu a suspirar, e um ai
de melancolia me sai.

da aldeia moça saí
e a olhar atrás, nem me atrevi,
do olhar um arco-ires me fugiu
jamais o sol me aqueceu
levei os becos, a ponte e o rio
passou por mim arrepio
o silêncio na carne e a alma doeu

pus no bolso as lembranças
e nunca me refiz da partida
ainda ontem éramos crianças,
hoje já fazíamo-nos à vida

matava-me a nostalgia
os poemas eram grito de pavor
rasgava as entranhas dia a dia
enlouquecido ferimento
por não saber esquecer
a quem tinha tanto amor

a saudade durou uma eternidade
da voz do rio correndo,
do sol a flutuar no azul do céu
e, meu pensamento entontecendo
por deixar tudo que era meu

memórias que ainda existem
e das quais não me liberto
nunca teria sido poeta
se não as tivesse por perto
nas noites desarrumadas
vivo de lembranças atadas
com a poesia comigo

natalia nuno
rosafogo







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