domingo, 18 de maio de 2025

ainda fico de faces coradas...



sinto-me solta como balão
amanhã é outro dia
um dia com flores no jardim
Deus me mandará mais poesia
trato dela, e ela trata de mim

às vezes de palavras fico nua
e sem sonhos para vestir
aguardo a chegada da lua
arrepios líricos no meu sentir

ainda fico de faces coradas
e à janela da insónia me ponho
noutra realidade me abandono,
um frenético desejo d' amor
e surge sonho

estou perto de mim e tão perdida
agora é a confusão e o esquecimento
o espelho, e o abismo
que emita o meu  movimento
prendendo-me enquanto cismo.

se o sonho à vida não voltar
para nele semear fascinações
vou ter que à vida podar
imagens nascidas de ilusões

natalia nuno
imagem pinterest




o tempo é escasso...



adormece a tarde
e o sol cansado, descansa
no horizonte,
no ar um reino de aromas
e eu sem palavras de esperança
nesta selva dos dias
onde só o vento dança

sem qualquer promessa
tudo é em vão
nem a paz se apressa,
delapidou a esperança
em meu coração

se houvesse um brilho 
que abrisse este dia cinzento 
da sua monotonia,
talvez descobrisse
a palidez do meu rosto,
e levasse dele toda a nostalgia


aflijo-me agora
vou até onde me leva a obscuridade
no vazio da hora
onde o sonho se esfuma, 
e surge a realidade

o tempo é escasso,
seca-me a idade sem tréguas,
lembro o abraço, e o refúgio
onde havia doçura
o que um dia foi, o tempo perfura,
rasga, sem dó nem piedade

comovido o olhar,
e num esforço palpitante,
sigo caminho
esqueço, 
quero a solidão distante.

natalia nuno







quinta-feira, 8 de maio de 2025

saudade doce saudade...



nos meus olhos
trago disfarçada a alegria,
do pensamento brotam palavras
dia após dia,
- doloridas.
achei ditoso o dia em que te vi
procuro-o nas lembranças
perdidas
na saudade de ti.

procuro nas cinzas frias
duma ardente chama 
e na saudade com que convivo,
do olhar de quem meu coração
ama

saudade doce saudade 
em vez de sarar, 
abre mais a ferida
saudade tem aroma de trevo
poema desditoso duma vida

os sonhos não podem regressar
nem os longínquos delírios, mas
o amor é licor suave
e quem o provou 
venturoso, continua a sonhar.

natalia nuno
imagem pinterest

o fim do caminho...



cospe a vida sabor amargo
p'lo caminho vai pensando
tantos os anos que já trago!
o desagregar vou escutando

caminha, a morte à espreita
- vozes distantes algumas!
já esquecida a mão direita
poucas memórias, nenhumas

sem memórias inútil subida
e o que resta de humanidade?
pranto surdo, grande a fadiga
e do corpo enorme a saudade

natalia nuno
imagem pinterest




quarta-feira, 7 de maio de 2025

indiferente ao mundo...



a vida é tela que pinto 
singela, como eu a sinto
gosto que o vento me afague o cabelo
e me venha falar de saudade
que a lua mais tarde
me invada o olhar
ouça meus ais e até meu chorar

fico indiferente ao mundo
lá fora
deixem amar-me,
na silenciosa hora

talvez surja o sonho, 
e me leve no voo sem destino
sem paredes azedas de tristeza
diante de mim
e seja livre por fim.

acabei a tela
adormeço em vertigens d'amor
e no silêncio chega a noite
ecoa a saudade, e com ela a dor.

procuro nas linhas breves da mão
o sorriso que deixei entre os salgueiros,
e as turbulências que me afloram ao coração

e travo os passos aos pensamentos
que correm ligeiros.

natalia nuno
imagem pinterest



sábado, 3 de maio de 2025

derrubando sombras...



estou sentindo um terrível vazio
tropeçando e caindo de cansaço
fundo bem fundo como o leito do rio
desmemoriada e surda
ao silêncio me abraço.

ouço apenas a terra e o mar,
a espraiar-se até mim
e a terra enche-se de ar
com aroma de jasmim

quero ver-me distante daqui
onde a memória procura minha infância
- por aí,
onde tudo cure a dor
onde os olhos já não sintam a distância
a imaginação seja um festim d'amor,

e a vida se torne um beber lento e doce
e fulgure como se ontem ainda fosse.

natalia nuno


arranjando remedeios...



meu sonho é porta fechada
sou agora deserdada,
pela rapidez do tempo
deixei-me adormecer,
o sonho já me enfastia
porque hei-de eu querer
viver nesta fantasia?

trago o olhar turvado
e as palavras também secas
mas lá sigo o meu caminho
ora mal, ora mais aliviado

perco-me nos meus anseios
deambulam os pensamentos
vou arranjando remedeios
para aliviar meus tormentos

suponho que alguns sonhos
hão-de ainda até mim chegar 
não venham dias enfadonhos
mas vá poder-se, adivinhar!?

quem sonha não se vai perder
mas o destino sempre afronta
ninguém sabe, tem como saber?
e logo a vida nos amedronta

quanta força precisamos ter
de nascer outra vez prá vida
não deixar a  voz emudecer
e fazer das palavras sã comida.

natalia nuno
imagem pinterest