quarta-feira, 7 de setembro de 2022

e tu dizes que me amaste!



quando morrer
deixo-te beijos em testamento, 
aqueles que não aceitaste,
viver é escolher
e dizes tu que me amaste!?
o amor é oceano de ternura
duradoira, que sempre dura.
e dizes tu que amaste!
os ramos adoram as ramas
e sonham vê-las floridas
quando dizes que me amas?
sílabas soltas perdidas.

ilumino o avesso do espelho
e de nada me recorda, apenas
o que jamais escutei, o velho
tempo, das flores amando-se.
por entre raios dos canaviais
escuto a languidez dos meus ais
como se de música se tratasse
e eu ainda te amasse.
são tempos distintos que junto
neste momento
e deixo na confidência do vento
e tu dizes que me amaste!
sussurras ao meu ouvido
agasalho com que calaste,
meu coração ressentido.

natalia nuno
rosafogo








terça-feira, 23 de agosto de 2022

tempo que me resta...



ao  longe a voz do vento 
ouço-a no meu horizonte
trago calado o pensamento
vou atravessando a ponte.
e no tempo que me resta
cedo à ansiedade da pressa
e à vida que não foi festa
não bato palmas nem peço meça

onde me leva o destino?
penso eu neste fim de tarde!
neste poema pequenino
talvez dele venha a verdade,
poema onde navego
neste meu mar em liberdade
e sempre que eu lhe pego
é na hora da trindade.

da lembrança varri os dias
de sombras no meu caminho,
esqueci as mágoas sombrias
escrevi memórias em pergaminho.
escrevo onde o amor floresça
mesmo com o céu pardacento
e se fôr a saudade que cresça
no coração, acolho-a no momento.

será o vento que há-de soprar
tudo o que perdi de vez
e quando o coração pagar
o preço da vida, talvez,
se acabe para sempre a solidão
porque o tempo nunca espera
traz a morte pela mão...
não insisto ficar, mas a espera desespera...

natália nuno
rosafogo




para onde fugiu meu sonho?...

permita Deus que meu sonho acorde
volte de novo a mim
e talvez eu me recorde
nesta vida ao que vim.
na minha alma há fantasmas
os sinto a qualquer hora 
vem sonho meu,
- não me pegues de surpresa!
a saudade a mim aflora 
minha tarde já se apaga 
de mim já me perco agora,
a vida ficou sem beleza.

para onde fugiu meu sonho? 
meus olhos são como rio,
passou o tempo risonho
a vida está por um fio!

teimo em manter-me viva
como a força das marés
queira Deus que eu sobreviva
e feliz volte a sonhar
corpo e alma, 
felicidade de lés a lés
com a grandeza do mar.

natalia nuno
rosafogo


terça-feira, 16 de agosto de 2022

já não há luz...



cabelos brancos, já não há luz,
surge a queda, é a ruína
pedaço de prata não me seduz
quero antes ser magnólia branca, menina.
trazer os olhos vendados à desventura,
da vida esquecer e viver
a ilusão de ser uma virgem pronta
a entregar meu coração.
atrás de mim um som ensurdecedor
chameja na minha cabeça
é a dor do amor com medo
que adormeça.
removo os dias que em mim
foram maus, 
e recordo os de marfim.
minha armadura desfaz-se
dói mas escondo,
já não há luz!
mas a vida faz-se,
dias felizes me propondo.
porém, os pensamentos são rochas negras
a mente região cheia de escombros,
onde o silêncio às vezes me afoga
e a vida se arroga
e me confronta, e nem sempre estou pronta!
o tempo comeu-me as ânsias
as esperanças, as vontades,
e deixou-me paralisada nas saudades.

natália nuno
rosafogo





quinta-feira, 11 de agosto de 2022

a vida um espinho lento...

na velhice uma saudade indefinida
saudade que aflige mente e coração
saudade do tempo que passou de corrida
instantes loucos de ilusão
hoje sento-me no cais da saudade
embarco no sonho para a ti voltar
sonho tão fora da realidade!
que surge na noite sombria à hora de amar.

minha alma veste-se de saudade
daquela saudade que dói
é doce, amarga, tão dura
a saudade do tempo que foi.

amar é no fundo esquecer a vida
é cerrar os olhos ao sombrio presente
foi-se aquela idade tão querida
em que o fogo que nos cercava era ardente.

natalia nuno
rosafogo

por ti ainda sonho...








continuo a caminhada pé a pé, sonho com lufadas de ar fresco cheirando a mimoseiras floridas, outros tempos me vêem à memória e um fogo me sobe à face... vai o sol a pique mas, ainda estou pronta para amar, deixo-me levar mais tarde pelas asas do rio que vive em mim, e remo até surgir a tenra maresia... por ti! pois só por ti ainda sonho!

natalia nuno

a esperança já pouco me aquece a mão que escreve...



a esperança já pouco me aquece a mão que escreve, as palavras ficam na fronteira da solidão, e eu respiro devagarinho para não me perder p´lo caminho... vou olhando dentro de mim, procurando sonhos de vela acesa, já não tenho a certeza se a minha pele era de marfim, vem-me o desejo romântico de voltar atrás, cerro os olhos e por momentos sou capaz, estranha fantasia, quantos anos passados, escritos alguns versos de pouca valia, e vem-me à lembrança o pulsar do tempo, a aceitação da vida, tudo o que me traz saudade, as noites de luar que me faziam sonhar, as folhas rasuradas com palavras de amor bordadas, nesse tempo em que o amor era chama, canto e desencanto, tempo sem prazo que prometia ser eterno por acaso... entre mim e estes anos há memórias de cristal, que durarão pra sempre, de pedra e cal, a suavizar os meus dias...
natalia nuno