domingo, 7 de agosto de 2022

o chão onde nasci...



as minhas nostalgias são na verdade
feitas de saudade,
do reino da minha infância colorida
manancial de ternura onde hoje me sinto perdida,
no avesso do meu espelho
meu olhar cruza o horizonte,
trago na memória o céu tão velho
quanto eu...
e no largo da praça a velha fonte,
atrás das sombras ficou a juventude
onde deixei as minhas asas
agora volto lá amiúde
ao adro, à praça e atrás das casas.

as minhas nostalgias são na verdade 
feitas de saudade
sinto o pulsar fraterno da brisa
sinto-a em minhas mãos como pureza
é tudo que minha alma precisa,
a casa ainda sussurra ao meu ouvido
lá em baixo o  rio povoa-me de ilusões
e traz ao meu sentido
o escaldante calor dos verões.
sinto a eternidade desta saudade
que me traz cativa
sou a noite, há muito deixei a claridade
sonho-te e quero lembrar-te por muitos anos que viva
as minhas nostalgias são de verdade,
chão onde nasci, é por ti
que trago esta saudade.

natalia nuno
rosafogo





sábado, 6 de agosto de 2022

firme sentimento...



ver-te e nos meus olhos, sentir
o fogo que é magia
vai-se a vida a diluir
insegura, pergunto-me sem ti
que seria?!
poque és saudade, presença em mim
és a verdade, deste firme sentimento
cuidemos do amor até ao fim.

nesta confusa vastidão
perdura em mim a jovem chama
e em alvoroço o coração,
é por ti que sempre clama.
deixo-me ao abandono
fica em mim um doce cansaço
logo depois surge o sono
no calor do teu abraço.

natália nuno
imagem pinterest


segunda-feira, 1 de agosto de 2022

o aperto da saudade...

 


De momento o entusiasmo é muito pouco, sinto-me uma folha arrastada para um outono de esquecimento, estou como uma garça descansando nos juncos...porém a natureza entusiasma-me muito, serei sempre aquela menina descendo o carreiro, correndo pelo prado direito ao rio, de água clara e sem fundo no seu sereno marulhar, ao redor, salgueiros frondosos,  o jardim da mãe com as flores a desabrochar, árvores de frutos a madurar, sonho sempre que estou a chegar, mas, sem chegar jamais! Sou agora a pessoa que ri da sua ansiedade... no presente corro ao mar, povoa-se a mente de fantasias ao olhar o imenso azul, e volto a sonhar, e é como colher grinaldas de jasmins com orvalho, para colocar nos cabelos...e voltar a criança feliz... meu corpo se rende, desfaleço como lírio numa jarra  sem água, trago as mãos abertas ao vento, arrasto-me para um outono de esquecimento...onde vou morar na saudade, ao entardecer, aguardarei para me aproximar de ti.


natalia nuno




terça-feira, 26 de julho de 2022

palavras caladas...



despertam os rouxinóis que dormitavam
em mim, desde a frescura da manhã
agora que é Outono, quase Inverno
e meu tempo a chegar ao fim,
espantam o frio que veio chegando
e trazem -me um sorriso de murta e jasmim
despertam os meus sentidos para a vida
trazem-me uma mão cheia de ternura
saudade duma alegria antiga
e sentimento firme que perdura.
de repente, rodeiam-me os teus braços
fundimo-nos nas noites consteladas
esquecemos o vazio
- e damos mais uns passos!
e em nossos lábios palavras caladas,
quem dera que voltasse a Primavera
quando o sol nos olhava embevecido,
nas madrugadas
em que nos amávamos, o vazio passa agora,
já passou a nossa hora!

natalia nuno




sábado, 23 de julho de 2022

saudade que amanhece...




há luas que nos entram casa fora
nas noites em que a gente quer amar
abre-se a janela àquela hora
descobrem-nos nus, os raios de luar,
e eu fico a pensar?!
tantas noites demoradamente doces
- como é bom recordar!
há ruídos que nos afagam
para lá do tempo, nem sabemos de onde
já todas as luzes se apagam
é a hora a que o sol se esconde.
já não lembro que me dizias
nestas noites ao ouvido,
foram noites, foram dias
tantas como as rugas, que hoje
no rosto fazem sentido.
nas noites albergamos o nosso amor
éramos felizes e eu não sabia quanto,
lembro só do pudor
e mais tarde, como me atrevia tanto!
somos amantes consumidos na nossa 
própria fogueira 
e hoje entra p'la janela a tristeza
a saudade deita-se ali à nossa beira.
já não há luas nem raios de luar,
nem o ruído do nosso amar,
vagueia a saudade nos trilhos da memória
e traz-nos recordações das noites vivas
de glória...
tínhamos a vida toda para viver,
tudo o que nos resta são sonhos com sabor a luar,
são muitas as coisas que eu não sei dizer
o que sei da vida e da morte, 
é que uma passou a correr
e a outra está pra chegar...

natália nuno
rosafogo




segunda-feira, 18 de julho de 2022

no turvo silêncio da tarde...



espero, como quem espera por um estranho
enquanto vejo a luz da tarde a cair,
cresce uma incerteza do tamanho
dum mar tenebroso que me invade.
e eu espero, até a memória consentir,
sonho, tal como noutras noites esquecidas
de ternura e sossego, que ficaram na saudade.
o sono atravessa a noite e a luz da manhã,
regresso à realidade mal dormida,
onde nem a esperança incendeia o meu querer
tanto à vida,
há um mar sombrio que desliza na mente
que me deixa em atitude de espera
e de repente, este mar galga os muros do meu peito
fica a saudade à espreita, enquanto a vida se ajeita.

sento-me perto do aroma do trevo
esquecida de mim, deixo-me ir
até onde a brisa me leva o pensamento,
é tudo quanto minha alma precisa
rasgar a obscuridade a cada momento,
e a inquietude afastar,
deixo-me envolver no tempo sem memória
fico a flutuar como ave extraviada
talvez que os sonhos regressem
talvez a sorte me sorria
e me sinta mais afortunada.

natalia nuno
rosafogo
imagem pinterest





domingo, 17 de julho de 2022

gomos sumarentos de paixão...



não me falem de papoilas escarlate
mariposas e crisálidas nas candeias
os prados verdejantes de aveias
onde as vidas eram grandes eram cheias
desse amor que hoje não pode resgatar-te

preciso habituar-me a este rosto
preciso substituir este meu olhar
nas papoilas deixei o sorriso posto´
e agora já não lhe consigo chegar
os olhos verdes de lágrimas marejaram
sigo triste, a noite avança na minha estrada
os sonhos nos verdes prados ficaram
hoje amor...me sinto desanimada

contempla o sol que cinge a madrugada
em gomos sumarentos de paixão
abraça o corpo feno, alma calada
sou teu cavalo, armadura e tua espada
levando do teu peito a solidão
deixa pousar em ti as mariposas
nas papoilas de teus lábios côr de rosas

o teu sol banhou o horizonte de côr
eu presa à janela olho-te à distância
como se o Mundo explodisse Amor
cada vez que poisas na minha lembrança
és recordação viva que quero conservar
meu coração de ti jamais se perderá
com ternura meus lábios deixo murmurar
e às estrelas juro, este amor não morrerá.

DUETO entre  Beija- Flor e Rosafogo
no Lusopoemas