sábado, 24 de janeiro de 2026

quando o sol vai a pico...

 


há palavras implorantes que surgem e me atormentam, que embaciam e apertam-me os dias, deixando-me em vulnerável negação, fundem o medo à minha pele, e se olho para trás cresce a ânsia e a solidão...a memória aguça-me ainda a cada instante, e eu procuro calar a minha mão que por vezes apaga a face amável que tinha da última miragem, mostrando-me a outra que o tempo tanto maltrata...o inverno cruza-se à minha frente com um ruído de vento e o odor da desolação, e em mim uma turva incerteza chega-me ao coração...


a mente por vezes fica como uma casa às escuras, ou com a luz mortiça do sol a pico, e poucas são as lembranças que gotejam, somente obscuridade, e logo a inquieta escrita permanece trémula, balanceando entre a vontade e a saudade...um duro motivo, um passar de horas tão frias e obstinadas, tão iguais à morte

- quando tento livrar-me, forjo os primeiros versos, com decidido traço, o silêncio dita, e cada palavra grita no pulsar dos versos.

natalia nuno
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

memórias de mim... no silêncio dos dias


o coração não desfalece, vive em inquietude vigilante e vai batendo sem vacilar ainda com o calor do fogo que lhe resta... esta força tamanha e incessante permite-me sonhar, devolve-me um pouco de alegria, e faz com que minhas palavras voltem a ter voz,  de modo a urdir aquilo que não se apaga nem com o tempo, e que continua no bosque da minha memória...assim surge o sol, com uma remotíssima fragrância a frutos maduros, a perpectuar em mim o valor da vida, sorrio no sonho, leve e claro, ouço o som das folhas que caem soando entre meus versos escritos em cansados papéis, para lá das janelas o vento passa esquecendo as horas, deixando sonhar o olhar neste dia de outono, cujas brasas ainda aquecem corpo e alma, as memórias me acalmam eu lhes quero tanto como a mim mesmo...uma sombra que procuro ignorar, vai-me seguindo e trazendo um pressentimento de nostalgia, como que a dizer-me que não desiste do caminho até ao final triste do inverno...

natalianuno

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

mulher, amante




o caminho que não percorri
aguarda por mim
nesta etapa da vida 
a chegar ao fim.
prevejo tempestade
a viagem quase concluída
trago em mim a saudade
apoio inabalável que sonhando,
me leva ao ponto de partida.

patética mariposa
depois de tantos anos
não é uma loucura?
a distância ficou maior
despenhou-se a bravura
ficou a dor.
hoje acolhe a solidão
aloja-a no coração.

a vida pode dar e tirar
a vida é este instante
e eu sou da vida
ainda, mulher amante.

natalia nuno
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agora sou a saudade...



o teu ombro ainda me apoia
meu coração é noite escura
habitarei no teu mundo de silêncio?

nasce a noite regressa o dia
olho-te, e meu olhar esfria
sobem estrelas e descem 
a minha solidão conhecem
e da minha janela ao vê-las
as minhas forças esmorecem.

vou sorrindo a quem me olha
e lembro bem quem partiu
agora sou a saudade,
quem me vê, e quem me viu!?
o tempo deita-se comigo
intempestivo, 
e como folha quebrada
ainda vivo, ainda vivo!?
minhas ilusões, uma por uma,
extinguem-se em onda de espuma
deixei os sonhos na juventude,
sonho com eles amiúde.

repletos de memórias
ouço-lhes os ruídos
trazem-me velhas histórias
que me contam horas a fio
aos ouvidos

a casa começa a desmoronar
pela raiz
o sonho como simples luz se reparte
e com arte, ainda me faz feliz.

natalia nuno/rosafogo
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abulia da espera...




escuto o relógio na sua pressa de bater, enquanto meu coração numa angústia tatuada de poesia, bate lentamente, filtrando alguns enigmas da vida... cortei o fio ao sonho embora amasse a esperança, deixei-me na abulia da espera dum sonho que nunca chega...agora, o pulsar do estranho hóspede vai perdendo sua harmoniosa pulsação, lentamente vai ouvindo murmúrios inquietantes, e acometido desta cadência vai dirigindo o amor à vida que silencioso me envolve... esta melancolia dói-me na alma e vai talhando uma tristeza, onde eu criança me vejo a desvendar o tempo futuro, por enquanto as memórias nunca cessam de me vir à memória, as palavras adornam-me a garganta, sobrevivem enquanto nos amamos, cintilam desejos, é dia, há ainda claridade, sento-me na erva à luz sombria do loureiro e vou morrendo de saudade, mais um dia... enquanto fores a certeza que me acolhe, caminharemos juntos até onde o sol nos espera...


natalia nuno

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