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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

tudo porque é hoje...




cansei das horas iguais
dos mesmos sonhos desfeitos
repetidos, do morrer dos dias,
lentamente, das tardes frias
e as minhas mãos na minha frente
paradas indiferentes, apoiados
os cotovelos, pálidos os abraços
a alma cor de cinza, cansados os passos
tudo de hoje, o que sobreviveu ao tédio
tudo de hoje, como húmida folha
caindo sem remédio...

eu escondendo a idade
e o tempo que me foge
antes quero lembrar a outra
de quem trago saudade
sofro porque é hoje
temo, porque é hoje
não quero mais, estas horas iguais
os mesmos sonhos banais
repetidos, nos dias do tempo que m' foge

esta vida já não me prende
só me tolhe e me ofende
é assim porque é hoje
causa-me dano e o tempo foge, vai passando ano a ano
sempre a levar-me ao engano
a solidão comove-se com o o meu cair
levanto os olhos do chão e sigo,
aguardando o que há-de vir.

natalia nuno
rosafogo


sábado, 17 de fevereiro de 2018

sou...



sou feita de velhos dias, sem brilho
turvam-se já meus olhos de tristeza
um sopro de inspiração, é meu trilho
sou água a tocar no fundo, incerteza!

sou aquilo que escrevo e pouco mais
sou a que fala de tudo, e até de amor
sou a que o poema manifesta, até os ais
choram os meus olhos se falam de dor

sou por fim a manifestação da loucura
sou saudade da primavera, já sem brilho
feita de velhos dias, q' ninguém procura

sou a rapariga que tempo velho ocultou
sou sem qualquer ironia, trapo andarilho
serei curso de água parado ou rio q' secou.

natalia nuno
rosafogo



segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

murmúrios de meus dedos...



ah! que me importa se mais não sei
o sonho é saída para a obscuridade
num barco de palavras... eu rumei
inquietações e caminho de saudade

que importa quem a mim se afeiçoou
foram tantos sentimentos d'insatisfação
se alguém sentimentos me despertou
recordo-os ainda nesta imensa solidão

q' importa o ruído em versos esculpido
e no coração este ritmo frio, persistente
que importa o tempo ter-me envelhecido
e a morte sempre a rondar-me febrilmente

q'importa se sou pedra q' por dentro chora
ou a erosão que escrevo nesta página vazia
enquanto o tic tac do relógio der a hora
titubeante e confuso nascerá mais um dia

que importa sonhar, ilusão em cada linha
e plantar inquietude em versos de frescura
ordenar ao acaso que em mim caminha
q'apague a melancolia e invoque a ternura?

natalia nuno
rosafogo



terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

debruando a solidão...



teus olhos me olham com espanto
como quem me espia,
como se olhasses um retrato esmaecido
esse olhar que me queria tanto
e trazia meu corpo estremecido.
mas, meu rosto já não é mais poesia
é estrela que segue seu rumo
a esse olhar d'agora não me acostumo.

ainda escorre dos meus dedos
e das minhas mãos quebradas
segredos, tão nossos,
e saudades acordadas
o tempo, esse mistério sem fim
matou a flor que havia em mim,
hoje sou irmã do vento
com as entranhas a rasgar
e trago dele o lamento
nas palavras a praguejar

se nem eu sei quem sou
não te ponhas a olhar-me assim
em precipitada queda estou
breve, breve a chegar ao fim
já morri na primavera
da saudade desse olhar,
entre mil sonhos à espera
e cansada de esperar...
a solidão percorre meu corpo louco
e embrenhado no pensamento
a morte chega a pouco e pouco

os dias vão remendando a vida
de novo pouco ou nada recomeça,
trago os dias contados
na esperança, que não corram
depressa...
olha-me só e mais nada
como se fossemos ainda amor perfeito
que a lágrima é passada
quando me encosto ao teu peito.
vou debruando a solidão
e ouvindo bater teu coração
emudeço como pássaro que faz a despedida
da primavera, já não canta, já cantou!
e neste silêncio de ave ferida
o canto a abandonou...
ficou... em céus de melancolia,
com saudade que na sua cabeça floria.

......................................
natalia nuno
rosafogo








sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

tempestade em mim...



hoje meus gestos são lentos
as palavras sem falar
sou como árvore nua com os braços a chorar
de frio, neste silêncio... silêncio
e lá se foi minha alegria, bateu-me à porta a
melancolia...
como é difícil esta melancolia!
e de repente, uma saudade a bater na luz do poente
saudade, saudade que faz doer na gente!
afunda-se o sol no horizonte
meus pensamentos andam a monte
desliguei do tempo, meu rosto amareleceu
fruto da viagem que há tanto dura,
e meu espírito... esse também se perdeu
meus olhos d' água entupiram
e nem os sentidos sentem mais, se é que
algum dia sentiram...

hoje meus gestos são lentos
as palavras sem falar
tudo o que era meu por direito, ficou sem efeito,
desapareceu, sustem-se frágil meu corpo
como barco em tempestade
morrendo a pouco e pouco,
numa dor velada
o coração, lentamente batendo
e o pensamento, não querendo lembrar de mais nada.

num vôo cego sigo adiante,
por entre maduros trigueirais
nas ervas daninhas, deposito meus ais
despenho penas minhas,
que me habitam o pensamento...e esqueço, este meu
desvanecer lento...

natalia nuno


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

suspendo-me nos silêncios...



nesta atmosfera tão sombria do entardecer
agita-se a folhagem batendo-me no rosto
é o vento querendo-me dizer
da profundidade da saudade
que me fere o coração.
as folhas agitadas, balouçadas
com o meu pensamento,
os sentimentos divididos, gotas de água,
temporais de mágoa
gemidos do vento que trazem o eco do mar

deito a cabeça no teu colo
e não quero mais a mim regressar

esta tarde recaio na melancolia
desalojada de sentimento
carrego nos ombros o cinzento deste dia
ponho o olhar no poente
é evidente minha solidão
é como se estivesse esquecida
desses dias que tão longe vão.

olho a terra molhada, lágrimas
que caem do céu...
faz-se noite, é a despedida e eu
penso como é monótona a vida...
mas, talvez tudo seja ilusão
meu corpo vai bebendo da saudade
vou perdendo chão e trancando-me
na solidão...para esquecer a realidade.

natalia nuno
rosafogo


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

madrugada fria...



as cortinas corridas, os estores corridos
soa-me o bater de asas aos ouvidos
com a chávena do café em frente
penso que talvez a morte que temo
me seja agora indiferente
a luz não entra, doem-me os sentidos
fecho os olhos e finjo que anoiteceu para mim
e assim, permaneço de mim esquecida
cansada do sonho,
cansada da vida
louca me reconheço, meus versos
são vagos, sem rumo,
longe da realidade
mas sem sonho ninguém vive
e vive sim, em mim a saudade

a vida não sei se tive
nem sei porque ando perdida
vou-me extinguindo como uma chama
que se apaga no cinzeiro do tempo,
as palavras afastam-se do que quero dizer
e, a alma esvazia-se de emoção
no rosto é visível a solidão...
entreabro as cortinas, o sol raiando lá fora
já não há treva que me assuste agora.
esqueço a obscuridade, sou livre como ave
trago comigo ainda amor e muita saudade
contemplo o horizonte sem sombra de melancolia
fico a ouvir o assobio do vento
nesta madrugada fria,
e sonho... iludida numa falsa eternidade.

natalia nuno
rosafogo