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sábado, 10 de dezembro de 2016

percorre-me o obscuro



joelhei-me à borda d'água
para aplacar minha sede...
olhei-me ao espelho c'mágoa
tempo, pena de mim não teve

trago um mal estar no peito
que é derrota e bem amarga
pra quê sofrer deste jeito ?!
se este tempo não me larga!

partiram sonhos em barcas
 
fiquei noite d'estrelas parcas
meu rosto tingiu-se de medo

já não tenho asas quebrei-as
lembranças abandonei-as...
murmuro  ais em  segredo 

natalia nuno
rosafogo






terça-feira, 6 de dezembro de 2016

poema confidente



nasce o poema como impetuosa papoila
vai ressurgindo numa viagem que não se detém
e como arauto certeiro da saudade,
nada, nem ninguém, vem
alterar o seu destino,
poema denso, nascendo menino
e tão breve como um pavio
poema imenso, na memória renascendo
desenlaça lembranças que estavam por um fio.

levanta-se amedrontado
como apavorada trepadeira, como se buscasse
palavras nas minhas entranhas
em sobressaltos rasgado, confiado num sonho maior
delirando como o troar dum vulcão
vai-me rasgando o coração...

não é poema de amor, não é poema de rancor
é um poema dum canto confidente,
poema de tranquila solidão, dum sonho
que inteiro passa, que me abraça,
que me assobia aos ouvidos agora delicadamente
lembrando a criança que nos meus anos corre
e não morre, enquanto tiver vivos os sentidos.

poema de luz fugidia, que se aproxima e se evade
que me trata e destrata, me assedia
poema que é recordação e saudade.

natalia nuno
rosafogo



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

náufraga...



o peito é um mar sombrio, quando a noite surge enferma e sem estrelas... as ondas em movimento brusco, em grande tumulto vão desbravando os meus sonhos de náufraga... a cada dia mais inalcansáveis até me deixarem obscuramente no esquecimento...é este o medo que sobe os muros por detrás de cada sombra...cai a chuva numa sucessiva agonia, rastejando, cai cega como pedra atirada ao meu dia, e dos meus dedos de solidão fogem as recordações caídas em nevoeiros, o meu «mar» de repente emudece e abre-se o silêncio no meu coração, e eu penso que a vida é carta por fechar, é luz entre luz no caminho que continuo a sonhar.


natalia nuno

sonho incubado...



sempre o mesmo sonho incubado
para dar sentido à vida
trago-o cá dentro calado
a fazer face ao desalento
com um estremecimento, às vezes
ergue-se provocador, desafiador
com tanto empenhamento
que me deixa sonhadora, como uma
jovem promissora
numa explosão de felicidade,
numa desabrida saudade.

na realidade, cada descer ao passado
sustenta cada momento meu,
como semente no meu interior
regada e cuidada, que do tédio me resgata
e encaminha os passos com fervoroso ardor

o tempo feroz me dificulta o avanço
faço a viagem num estado de sonho
com a brisa primaveril a baloiçar-me
na mente, e a vida, me aplaude intimamente,
há uma frota de nuvens que desliza pelo céu
nelas viajo até ao futuro, nem claro nem escuro,
para trás os tempos mortos e vãos
transformei-me numa enganadora com saudade
escrevo com minhas mãos, emoções com ingenuidade

escrevo sobre o impossível que é voltar atrás
alimento-me de ilusão, já tanto se me faz!

natalia nuno
rosafogo





terça-feira, 15 de novembro de 2016

um melro me canta...



fresca como uma manhã clara que desperta
tal como criança saída dum sonho
uma força imprevisível me atrai,
vai abrindo a minha claridade
e num ai,
deixa-me em liberdade
um melro me canta e
o vento fulgura
e eu feliz estreio o mundo como
se fosse todo ele ternura,
numa alada loucura
sobrevôo os riachos da tarde
e nesta liberdade ansiada
o meu olhar vive
e o meu sonho rodopia
nos intantes que não tive.

nem já as palavras me bastam
nem os numerosos passos andados
oculto-me nos buracos do silêncio
para que não me descubram
e nos meus horizontes irados
o meu coração vive de ansiedade
na presença do incerto,
morre de saudade... do sempre ao agora
na sede e no pranto que trago por perto,
solitária flor
de existência feliz diante do nada,
aos dias confiada...

natalia nuno








domingo, 30 de outubro de 2016

escutando meus passos



no sonho há aroma a magnólias
vindo do tempo, onde o tempo não contava
e o sol se aproximava de mim doce
abrindo a manhã como se fosse
a minha própria pulsação,
tempo sem tempo, cantava
um pássaro  no meu riso
e habitava amor no coração.

estendo a minha mão
a esta vertigem que é sonhar
e é como se fosse o instante dum beijo
em que me olhas com um só desejo
a sede de possuir-me,
como vai longe a quimera
e eu na solidão, à espera...
no oásis da minha memória
ainda há uma busca indecisa
que meu coração precisa
que a ternura lhe seja entregue.

mas o tempo corre, segue,
e deixa apenas recordações
nuvens escuras, visões, mas uma claridade
indistinta, e um só pensamento sobre ti
dos momentos que vivi, e
uma derradeira saudade...um mundo de interrogações.

no coração trago a herança dos anos
e na boca arco-íris de sílabas que soletro
que são teias e outras favos de mel,
teço e desteço ilusões, enganos e desenganos
o amor e a desdita
que eu grito até ao fim,
ao fim da vida, ao fim da escrita.

trago em mim amarelas florestas de outono
no calafrio do meu corpo adormecido
no meu Deus supremo me abandono,
caindo assim, a minha metade
mais trémula no esquecido.

e fica a censurar-me esta saudade.

natalia nuno
rosafogo





sexta-feira, 9 de setembro de 2016

entre uma lágrima e outra...



janelas fechadas
e, eu caindo na desmemória
já pouco volta ao calor do meu olhar
as pessoas amadas são lembranças
de negro azuladas, como violinos nas trevas
tempo fantasma é assim que me ensombras e me levas...
em cada degrau da imaginação
vive uma ou outra recordação,
desdobro um sorriso
vivendo como papoila abrindo-me ao ar,
na estreiteza do medo
de num só golpe a morte me arrancar.

a face retida na prisão do tempo
tantos sonhos acabados de quebrar
viver sem si mesmo, quem pode festejar?
o tempo disparou a flecha, quebrou a força
da m'alma comovida,
sitiou-me a vida entre uma lágrima e outra
dos meus olhos esburacados
talhados, para serem a flor do teu olhar
devastados por poder ser ou já não ser
e na inquietude do sonho ousar despertar

espelho de mim que ao de leve toca
para recolher o resto da flor que é nostalgia
não ouvirá um gemido da minha boca
que atormentada, vai ficando de palavras vazia.

natalia nuno