palavras escritas com o coração, em qualquer verso está vazada a saudade poética que a memória canta. A fascinação pelo campo, o idílio das águas, a inquietação o sonho, a ternura o desencanto e a luz, toda uma bagagem poética donde sobressai o sentimento saudade... motivo predilecto da poeta. visite-me também em: http://flortriste1943.blogs.sapo.pt/
domingo, 13 de janeiro de 2013
lembranças miúdas V
pequena prosa poética
Pelo tempo desarmada, trago estradas e atalhos a correrem-me p'lo rosto,
mas prossigo serena...abraçada à saudade e ao sonho que tiro da gaveta sempre que preciso sonhar.
A luz então em mim se faz tanta, que separo as horas tristes, vivo as restantes, calo a solidão,
e, fica apenas aos meus ouvidos o chilrear e o bater das asas que passam razando o telhado e me convidam a apanhar amoras, a bicar figos maduros, a respirar a brisa que vem de lá do rio, e é nesse momento que meus olhos esbugalhados miram as chaminés fumegando...ali fico olhando o fumo branco em direcção às eiras, o sol chegando, clara a manhã, a erva prateada e a água do rio espelhando.
Foi aqui! Aqui que nasci, bem no ventre deste lugar, coberto de orvalho, com o azul do céu lá p'las alturas, e com as romãs a abrir como pássaros querendo deixar a gaiola.
Quantos viveram semelhante sonho? Quantos fruiram tal como eu deste sonho que é crescer na natureza? Só mesmo esses saberão do que falo e desta minha saudade, assim como do meu apego às raízes.
Trago na mão restos de primavera e verão, no coração carrego as saudades do largo da praça, e a graça das cachopas do meu tempo com trajes domingueiros dirigindo-se à missa, no seu passo miúdo, esbeltas como se fossem princesas. Ao ouvido ainda soam as músicas bem distintas do açude moendo o trigo e a voz do sino em repetidas carícias, em sussurros enternecidos, chamando o povo à reza do terço...e aos meus sentidos explodindo de saudade há ainda o cheiro das flores abrindo, volto á juventude e ao riso,
sonhando sempre que preciso...assim, saudades de mim.
natalia nuno
rosafogo
net-imag.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
lembranças miúdas IV

Há imagens na minha memória umas vezes densas outras claras, e é entre o deitar e o adormecer,
que elas surgem como pássaros voando, ou como faróis acesos e fazem render a minha saudade.
Então é como se minha cabeça fosse um prado verde em Maio de onde não arredam pé. passo a olhar o ondular dos trigais, e eu sou uma andorinha espantada tocada pela emoção, salto prá beira do rio e gosto da imagem nele reflectida, colho flores que coloco no cabelo e a paz me acompanha, e tudo é tão real como a esperança em mim. Canto uma velha canção que guardei na memória como um tesouro, e há chilreios vivos, borboletas voando, besouros à volta dos figos pingo-mel, e o rio correndo ao mar...e eu lá, sempre pedindo para ficar.
Logo, logo, daqui a pouco o outono, o sol se deita mais cedo, e o pavão abre suas penas a despedir-se do dia, passa o último carro de bois na estrada poeirenta, atrás o cão preso à carroça, e na frente o boeiro cansado da jornada em passo lento, na esperança de ser breve a chegada a casa.
Estação dos ventos, dos caminhos molhados, está aí à porta o inverno a convidar as conversas junto à lareira acesa e ao conforto dos cobertores de papa...ah! Mas antes, é preciso ir à fonte, nos braços a filha, à ilharga ou à cabeça a bilha e a noite desce, o céu sem estrelas, a lua não aparece, o tempo faz medo, mas as brasas continuam a arder...e eu não vou esquecer. Saudades de mim.
pequena prosa poética.
natália nuno
rosafogo
imag. net
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
lembranças miúdas...III
pequena prosa poética
Há p'los campos flores baralhadas, remando contra a força do vento, assim morrem os sonhos no silêncio dos que sofrem de saudade, ao peso das lágrimas. Vivem-se assim tempos de asperezas onde o ...remédio é resistir às pressões do dia a dia.
Ando prá qui de pensamento em pensamento, interrogo-me constantemente do porquê de nem as flores escaparem e numa rapidez espantosa, serem despetaladas no encontro com o tempo.
Oscilante é a vida,ameaçador o tempo, indiferente é já a vontade e tudo fica assim mesmo, só o coração pode mudar, e transformar o nevoeiro instalado em sol, abrindo o verão e agasalhando de novo a esperança.
Seja manhã ou já tarde do dia, tudo chega ao fim, não lamento, pois trago em mim Poesia, que é festa no coração partido e é dança nos meus dedos ou até flor cheirosa no jardim...saudades de mim.
natalia nuno
rosafogo
ima.net
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
um resto do sonho...
reflecte-se a lua sobre os telhados
a frescura da noite roça-me o rosto,
vinda da folhagem do salgueiro,
ali do lado oposto.
trago os olhos fatigados,
mas hei-de subir a encosta,
com meu traje domingueiro,
solto ao vento fitas de cor
e o tempo deixa de correr
nos cabelos trago flor
nos lábios um riso florido,
e bordado a seda o lenço
com meu nome
e apelido.
e eu sem senso...
vou ter forças para tanto?
sonhos são borboletas tontas
à vida ando deitando contas,
gemeu-me o coração e eu fiquei
à espera...
e o tempo me falou...
tudo o que sonhas, passou,
e quem espera desespera.
minha esperança anda p'lo chão
silêncio em mim... e de verdade?
descubro que é a saudade
onde estou
e onde vou,
com ela abraço a vida,
causa-me estremecimento,
se apodera do pensamento,
é ferida,
que faz doer,
se cruza nos meus dias
num tempo sem saber,
que lágrimas, também são
feitas de alegrias.
luto contra a dureza
do tempo e dos traços sorrateiros
que em mim fez nascer
com clareza
e brevidade,
um pássaro os veio trazer
numa manhã de vento e saudade.
natalia nuno
rosafogo
imag-net
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
lembranças miúdas II
pequena prosa poética
A vida é um caminho longo e nem sempre fácil, não sonhe alguém que a vida é um mar de rosas, digo eu que levo experiência aos ombros, viver é ir pelo desconhecido, é tentação, é acender uma candeia no escuro e cada dia que passa é como o primeiro passo de menino, sempre aprendendo e agasalhando a esperança de dias melhores, mais generosos, molhados de sol.
Nesta história de mim, há uma paz que me percorre, mas de tempos a tempos existe uma alteridade e aí, surge um pouco de crispação e dúvidas quanto ao desejo de viver, ou melhor dizendo quanto ao sentido da vida para mim.
Mas, há sempre um solzinho que persiste em aquecer-me e a trazer-me de novo o sonho, onde pouso os risos, onde me reconcilio com a alegria e onde a saudade me faz escrever sem parar.
Nestas alturas o tempo bem que avança...bem que o cabelo branqueia, mas o Poeta em mim esquece, segue o caminho da utopia e inundado de emoção faz a poesia acontecer, tudo ao seu redor cheira a mimosas e os dias ficam mais perto, renovam-se os sentidos e os sonhos são cores do arco-íris. Parte então a princípio vacilante, depois, gota a gota seu coração reverdece abraça a vida e é nesse abraço profundo que a Poesia acontece...palavras escrevo sem fim...saudades de mim.
natalia nuno
rosafogo
imag-net
sábado, 5 de janeiro de 2013
lembranças miúdas I
pequena prosa poética
Na dureza do chão, sentada, colhia bagos de uva branca, até o sol afrouxar e os comia ali mesmo...
num tempo, quando ainda sem saber o porquê da solidão, quando trazia em mim a palavra hesitante, e nem percebia porque era feliz, vivia serena na pequena abundância.
Corriam os dias,como a água do rio, sem que a teia do tempo nos incomodasse (a nós crianças), só nos importava o cheiro das coisas boas...pão no forno a cozer, a sopa da mãe a fumegar, o café de cevada da avó na lareira...
Assim se abraçava a vida, se aguardava cada manhã o calor do sol, a chegada da chuva milagre das sementeiras e o luar das noites brandas e serenas de namoro.
E eu lá, na magreza do corpo, ensopada em sonhos, rimando quadras singelas na sede de procurar algo em mim que me adoçasse o caminho, afogada em esperanças que inda hoje ninguém me consegue tirar, são elas a frescura com que sempre recomeço a talhar novas palavras... com candura, como se plantasse urze ou alecrim....saudades de mim.
natalia nuno
rosafogo
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saudades dum tempo
tiro a poeira do tempo
e faço acontecer
momentos de amor.
tiro as teias às horas
e vou meus sonhos tecer,
e na paz que sobrar
farei o amor crescer.
numa labareda de frescor,
e não haverá muito, nem pouco,
nem nada...
nem solidão em mim
espalhada!
só saudade, saudade passada,
sem cura...
e um suspiro lembrando
a ternura...
o sangue a ferver
o coração a bater
e a morte por haver,
palavras que já não ouso dizer.
mas quando te encontrar,
voltará a esperança como herança
aquela que andou sem dono
ao abandono...
deixar-me-ei de amor saciar,
haverá reconciliação
e festa no coração.
haverá um tempo de verdade
tudo ficará no lugar
um sonho feito só saudade
e Deus em nós a habitar.
pronúncio dum tempo de paz
saudade molhada de saudade
tempo que invento e me satisfaz
tempo de claridade...
no poente,
sentirei liberdade
com coragem seguirei
caminho inteiro
e Deus será meu conselheiro.
natalia nuno
rosafogo
imag. net
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