Seguidores

sábado, 5 de janeiro de 2013

lembranças miúdas I



pequena prosa poética

Na dureza do chão, sentada, colhia bagos de uva branca, até o sol afrouxar e os comia ali mesmo...
num tempo, quando ainda sem saber o porquê da solidão, quando trazia em mim a palavra hesitante, e nem percebia porque era feliz, vivia serena na pequena abundância.
Corriam os dias,como a água do rio, sem que a teia do tempo nos incomodasse (a nós crianças), só nos importava o cheiro das coisas boas...pão no forno a cozer, a sopa da mãe a fumegar, o café de cevada da avó  na lareira...
Assim se abraçava a vida, se aguardava cada manhã o calor do sol, a chegada da chuva milagre das sementeiras e o luar das noites brandas e serenas de namoro.
E eu lá, na magreza do corpo, ensopada em sonhos, rimando quadras singelas na sede de procurar algo em mim que me adoçasse o caminho, afogada em esperanças que inda hoje ninguém me consegue tirar, são elas a frescura com que sempre recomeço a talhar novas palavras...  com candura, como se plantasse urze ou alecrim....saudades de mim.


natalia nuno
rosafogo
imag- net

saudades dum tempo




































tiro a poeira do tempo
e faço acontecer
momentos de amor.
tiro as teias às horas
e vou meus sonhos tecer,
e na paz que sobrar
farei o amor crescer.
numa labareda de frescor,
e não haverá muito, nem pouco,
nem nada...
nem solidão em mim
espalhada!

só saudade, saudade passada,
sem cura...
e um suspiro lembrando
a ternura...
o sangue a ferver
o coração a bater
e a morte por haver,
palavras que já não ouso dizer.

mas quando te encontrar,
voltará a esperança como herança
aquela que andou sem dono
ao abandono...
deixar-me-ei de amor saciar,
haverá reconciliação
e festa no coração.
haverá um tempo de verdade
tudo ficará no lugar
um sonho feito só saudade
e Deus em nós a habitar.

pronúncio dum tempo de paz
saudade molhada de saudade
tempo que invento e me satisfaz
tempo de claridade...
no poente,
sentirei liberdade
com coragem seguirei
caminho inteiro
e Deus será meu conselheiro.

natalia nuno
rosafogo
imag. net







sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

palavras são palavras...




A sensibilidade poética é em mim como que um agasalho,  sou de temperamento poético e de quando em quando a imaginação entra em festa, então resolve brincar  às escondidas com
as palavras quase sempre nostálgicas, outras  são de alegria...que me fazem levitar num ceu só meu, em contrapartida reparto com elas meu precioso tempo, minha intimidade, minha saudade do passado, e tudo o mais que temos em comum. Rio e choro, danço e canto com elas, ocupam-me o pensamento, os sonhos, daí eu pensar que são minhas e não pretender abrir mão delas. Quando dou por mim  solto-as e então viajam até outras almas sensíveis, para seu enlevo...!  Afectuosamente lhes dâo atenção, as acarinham e as consideram de rara beleza.
Como não hei-de morrer por dentro?
Se fico vazia. apenas com a lembrança serena e a saudade tão presente no meu dia a dia? A minha imaginação  fascinada pela poesia, traz-me um novo idílio com as palavras e renasce em mim novamente luz e com simplicidade  transformo-as em versos, vazando neles sentimentos que entretanto volto a partilhar...e assim vou embalando meu tempo....


natalia nuno
rosafogo
net...imag.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

a paz em mim...




passa o rio desafogado
o vento por entre uma arvore e outra,
e há uma ternura espalhada
pela terra absorta.
junto à  janela me aquieto
meu olhar é fio preso à tarde,
e na proximidade
a noite e a sua palidez
e um arco-íris disfarçado
apaga-se da memória a solidez
fica o coração agastado.

tudo cabe numa lembrança
para lá do rio
ficou meu sangue enlutado
no corpo um arrepio
segue o rio desafogado.

para me lembrar,
inunda-me o cheiro dos laranjais
fecho os olhos e vejo as estrelas
e o rio já não é o rio, é o mar
de lágrimas do meu olhar,
é saudade entre sonho e verdade.

lágrimas que vêem da memória,
seco os olhos não vou esquecer
minhas raízes
nem meus sonhos, por mais
negros que sejam,
felizes ou infelizes.
continuo viagem
pé após pé
com fé!
sem paragem.
mergulhada no caminho
emaranhada no escuro silêncio
do anoitecer,
já os passáros anoitecem no ninho
e eu me sinto a correr,
no ventre da estrada da banda de além
onde já não tenho ninguém.
só meus olhos ficam colados
meus pensamentos retardados
e a paz em mim
e a paz sem mim...

natalia nuno
rosafogo
imag-net

o sítio da aldeia onde nasci tinha o nome de «Banda d'Além»



















meus pensamentos





Meus pensamentos,
são galgos perdidos na tempestade
são melancolia que não me larga
momentos de embriaguez
e saudade…
desdobram-se num vôo  louco,
impõem se com altivez
e eu posso fazer tão pouco!
 
Meus pensamentos
têm asas como os morcegos
voam para a obscuridade
trazem-me desassossegos
e lá volta a mim a saudade.

Meus pensamentos
são pássaros verdes no peito,
saciam a sua sede
nesta saudade, que me atormenta
sem jeito.

Meus pensamentos
são barcos que partem do cais,
levam minhas mágoas, meus ais...
enquanto  a noite não se faz tardar
e a morte anda por aí a rondar.

Natalia nuno
rosafogo
Fuzeta, 10/12/2012

 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Como me sinto?

 
 
 
Como me sinto? Nostálgica, talvez porque vai terminar mais um ano, coisas minhas!
Hoje apetecia-me ler cartas de amor que nunca me escreveram, que me rasgassem o peito de saudade e cobrissem meus olhos de água, me lembrassem que já foram meus olhos verdes, p'los quais andaram apaixonados...dado que já me esqueço uma vez ou outra...
Mas nem o vento vem falar-me dum poema onde fui notícia... nem que f
osse o derradeiro!
Hoje queria que o sol descobrisse meu endereço, me deixasse confessar-lhe meus sentimentos, fizesse parte da minha solidão, ou me trouxesse de volta meus dias felizes, amanhecesse de novo a minha vida...
Aprendi a fugir da realidade, embora pareça leviandade, para mim é um impulso de bom senso, deixo-me num mundo mágico onde eu e a poesia disfrutamos do aroma dos cravos e das rosas...

Não me deixo derrotada! O poeta é um ser inconstante, ora está feliz, ora não, entra em contradições contantes, mas seus dias são preciosos e necessita sonhar nem que o sonho por ventura não se realize nunca...

É assim que me sinto!
 
natalia nuno
rosafogo
imagem da net

domingo, 23 de dezembro de 2012

o sonho e inquietação




por onde andará o sol na imensidão
do céu, agora que a noite cai?
o dia ficou na penumbra e com ele meu
coração.
não se ouve nem um misterioso ai,
tudo é solidão.
caem já gotas de orvalho, vem o vento
murmurante
e com ele vai meu pensamento
errante.

cismei que ouvia a tua voz
que me falavas ao ouvido
deixei-me a sonhar
mas era sonho,
tornado pesadelo dolorido.
será que o sol morreu?
e a noite trouxe a tristeza?
toda a lezíria escureceu
e nem uma estrela acesa.

tanta lágrima saudosa
deixai-a correr... deixai!
tanta mágoa dolorosa
até meu rosto se contrai

e a noite é negra de breu
sinto que o tempo esvoaça
páro a olhar o céu...
e sonho que uma alma gemea me abraça.
mas é sonho, solidão, negro inverno,
que me consome sem piedade...

que nasça de novo o sol
e me devolva a claridade.

natalia nuno
rosafogo
imag- net