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quinta-feira, 9 de junho de 2011

MEMÓRIA DUM TEMPO ÍDO



Já choram de novo os beirais
Me embalo com o seu choro
A solidão pesa demais
Por um dia de sol imploro.
Cai a chuva como pranto
Desesperada no chão
Também o meu desencanto
Açoita o meu coração.

Já choram de novo os beirais
Lágrimas do céu em desespero
Cantam os pássaros seus ais
E eu à Vida que tanto quero.
Não levo pressa de chegar
Quem sabe numa madrugada molhada
Ou quando o tempo amainar
E a Vida p'ra mim fôr nada.

Já não choram mais os beirais
Se calam em descanso merecido
Já são memória nada mais
Memória dum tempo ído.

Agora sou eu quem chora
Porque já se encurta a Vida
Meus sonhos foram embora
Ando de sonhos despida.


rosafogo
natalia nuno

quarta-feira, 8 de junho de 2011

SOU COMO UMA CRIANÇA



O tempo passa e o silêncio desce
Traço o último olhar sobre este dia
Já a sombra da noite aparece
Já surge a monotonia.
Nada mais repousante que esta hora!
A sombra da noite caindo
Ver o Sol distante a ir embora
E as giestas de amarelo vestindo.
Cantam ralos sem parar
E não param na ribeira as rãs de coaxar.

O burro tira ainda a àgua à nora
E já o dia sem lamento vai embora.

Mergulho meus dedos na escrita
A mim tantas perguntas faço!?
No Mundo tanta desdita
Tão pouco amor, falta de abraço.
Tiro um livro da estante
Pensando numa razão para a vida
Fecho os olhos me sinto perdida
Deixo o pensamento distante.

Escrevo, sobre coisas de pouca monta
Escritos que dão pouco fruto
As lembranças já me deixam tonta
Perco Vida a cada minuto.

Sou como uma criança
Tal qual se manifesta
Ora alegre e com esperança
Mas logo sem vontade de festa.

Leio um livro ofertado
Que fala de lágrimas e olhos doridos
Do presente e do passado
E de mortos não esquecidos.
De viagens sempre adiadas
Páginas e páginas tristes,
em tristeza mergulhadas.

Pergunto-me porque estou triste
Se, porque mais um dia passou
Ou porque a tristeza insiste
Em me pôr mais triste do que já estou.


Não leio mais por hoje
Apagou-se o fogo na lareira
Já a vida me foge
Ela que ardeu em mim a vida inteira.

rosafogo
natalia nuno

Escrito no silêncio da aldeia, só ouço agora o piar dos pássaros escolhendo ramo para prenoitar.

MIL PEQUENOS NADAS



MIL PEQUENOS NADAS

Mil pequenos nadas
Cheiros e sensações,
Me dando boas razões
Para minhas noites acordadas.
Neste momento de solidão
Único, imenso.
Na serenidade e em escuridão
Fecho os olhos e penso.

Como são pequenos meus dias
Passando, sem qualquer resposta.
Morrendo. Feitos de realidades frias.
E logo a noite se mostra.
Olho para trás, uma recordação vivo,
A cada passo mais uma revivo.
Até que a memória fica despovoada
E eu tranquila, satisfeita,
Deixo-me para além de mim, abandonada.

Na sucessão dos dias
Saram velhas feridas, dou mais um passo
Mais um palmo de terra, semeio alegrias
E vou mantendo, com o passado um laço.

Restam sonhos e vontades!
Sinto ainda os traços que alguém me roubou.
Chorarei até à última gota as saudades
Sucumbo ao cansaço, o tempo me enganou.
Vou a página virar!
Lembrarei o que houver a lembrar!?
Neste fim de tarde,
Já se vai do céu o azul profundo.
Com pequenos nadas e em liberdade.
Sigo alheia ao Mundo.

rosafogo
natalia nuno

CANSEI DE NÂO FAZER NADA




Caem gotas de chuva na vidraça
Pouca coisa quase nada.
Hoje até a alegria é escassa
O tempo voa é arma apontada.
É tempo de despedida
Surgem avisos, tudo se manifesta
Acaba a noite e a Vida?
Quem a julgar que leva vencida
É pouco o tempo que lhe resta.

Encosto-me aqui à parede
Olho a rua vizinha
Na poesia vou matando a sede
Da saudade que é tão minha.
Os meus sonhos estão indefesos
Mas as palavras nos lábios nascendo
Os meus olhos estão acesos
Monótonos momentos vivendo.
Chega o frio à minha vida
Cansei de não fazer nada
Tempo de despedida
Desta quietude cansada.

E logo a saudade bate fortemente
Bate na memória trazendo tudo
E neste silêncio mudo!?
Imerge em mim o desejo que me falta
Porque o esquecimento me assalta
Deixo o sofrimento ausente.
Nesta noite fria, anda sonâmbulo o vento
Amanhã é outro dia, outro será meu pensamento.
Abre-se o Céu com seu choro
Chora na minha vidraça
Já à noite o sono imploro
Já esqueço a rua e quem passa.

rosafogo
natalia nuno

terça-feira, 7 de junho de 2011

O LIVRO ENTREABERTO



O livro entreaberto, meu olhar perdido
Folheio o livro sem me deter numa linha
Esforço inútil sem sentido
Culpa do livro, ou culpa minha.
Escuto o sussurro do vento
Que por entre as arvores suspira
E a escuridão é envolvente
Do rio ouço o lamento
A solidão
O ar pesado que se respira
E a Lua bruxuleia olhando a gente.

Tudo o resto é imaginação
Não há outra saída
Anda dorido o coração
E as palavras ficam-se na garganta
contraída.
Adensam-se nuvens negras,
o ecoar do trovão
Diante de meus olhos assombrados
O resto é imaginação!
E pensamentos atordoados.

É noite, não sei se em mim,
ou lá fora!
E o meu olhar perdido
O livro entreaberto
Chega a hora
sem que tenha percebido
Fico a sós, a noite é um mistério por perto.

Quando era jovem falava com as estrelas
Como queria perpetuar
tudo o  que na memória ficou!
Não tinha com quem falar, falava com elas!
A menina que o vento os cabelos soltou
A menina que o vento embalou
Hoje, não a prende a leitura!
Põe um sorriso no seu rosto de criança
Nasce de novo nela a ternura
E se comove com a lembrança.

natalia nuno
rosafogo

segunda-feira, 6 de junho de 2011

UM SONHO



Foge a Vida, que maldade!
Passam as horas fugidías
Embarquei na tempestade
Agora são parcos meus dias.
Bebo o silêncio do luar
O pensamento é meu algoz
No rosto a lágrima a rolar
Enquanto o tempo corre veloz.

Trago comigo aziaga estrela
Que insiste em armar-me o laço
Fingindo que por mim vela
Finge-se amiga segue-me o passo.
Fecho os olhos e sinto o vazio
E a saudade se acomoda no peito
Nas veias sempre o mesmo calafrio
Fica a Vida deste jeito.

O que vai p'ra além deste dia?
Já nada, que a mim importe!?
Tão sómente a Morte fria!
Mas eu? Mais que ela serei forte!

Minha saudade se veste de veludo
Recordar é um doer risonho
Na Vida faltou-me um pouco de tudo
Pouco mais que nada. Um Sonho.

natalia nuno
rosafogo

SEM O TEMPO SABER




Darei gargalhadas de desprezo
Ao tempo, a este tempo inclemente.
Triunfarei sobre ele, esquecerei o peso
Com que calca minha alma misteriosamente.
Ele que me devora e me agita
AH! Mas não lhe darei guarita!
Atravessarei o vazio, sem temer
Esperarei sem medo seu gesto derradeiro
Farei da minha coragem o eixo do poder
Viverei dia a dia como se fosse o primeiro.

E quando se unir o princípio ao fim
Na imemória, restará alegria
Esgotarei, todo o sol que houver em mim
Atravessarei por fim a noite sombria.

rosafogo
natalia nuno